quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012



O QUE ME RESTA?
Autor: Nilton Bustamante

O que me resta nesta noite que se vai longa,
Que se vai longe e não se entrega?
O que me resta nesta folha que cai da árvore pra beijar a rua
E ser levada pelo vento, pelo prazer do momento
De se evadir madrugada adentro, sem olhar pra trás...
O que me resta, o que me resta?

Esse labirinto que já sei de cor,
Que já o fiz por todo jeito, todos os lados, mãos e contra-mãos;
Que de tanto buscar a saída, de tanto se acostumar nesse fixo pensamento,
Já cheguei a ver a luz do sol, já cheguei a ouvir o barulho das ondas livres do mar,
Cheguei a ver a porta e a calçada, e de tanto ficar nesse vai-e-vem, retornei,
Fiquei, e fico na longa entrega da procura desse dia, dessa noite,
Que serei folha caindo levado pelo vento, pelo prazer do momento de se evadir, sem olhar pra trás...

Ah, esse meu jeito morcego que emite meus pensamentos
Na espera de qual será a resposta que virá em seguida,
Essa admiração pelo céu que me engole, me consome e me sinto mais inteiro...
Com maior vontade de voar às cegas.
Essa fidelidade, esse fascínio pela palavra, minha mulher amada, minha namorada.

Ah, esses sons, essa sonoridade da vida e da morte,
Encontro e despedida, do abraço irradiando coragem
Como quem segura pequeno arbusto na beira do abismo
E não se faz conta ao abrir os braços e encostar corações,
Neste ato mais importante que a própria segurança,
Mais importante que os atos ensaiados, esse repouso depois que o fogo a tudo queimou.
O que me resta, o que me resta?

Se meu lado rústico ainda está tentando se entender com a ternura,
Se ainda estou aprendendo seus contornos, suas formas, intimidade,
Feito quem no primeiro encontro fica tão extasiado ao entender que a viagem é outra,
A pulsação loucamente descompassada, rasgando o peito a vontade de chorar ao toque leve das mãos;
Saber que a entrega é outra, é deitar na areia da praia, ficar no silêncio olhando pra cima,
Vendo estrelas mesmo na chuva...

E nessa suavidade,
Nesse mesmo silêncio as mãos em mímicas imperceptíveis conduzem o alçar dos voos e pousos.
Ah, o homem conseguiu ir à Lua, mas é tão precisado das mãos da ternura para se aventurar em solo profundo feito kamikaze,
No último suspiro de vida e sorte...

Essa memória, essa história, que faz de mim simples folha,
Um andarilho levado pelo vento, na busca do amor,
Pelas ruas onde as pessoas-automóveis passam, passam, passam e não se dão conta...


...

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