
sexta-feira, 11 de junho de 2010
O QUE ESCREVO

APERTANDO O PASSO

Nilton Bustamante
Guardo guardado em meu coração
Lama molhada poeira chorada
De quem segue sem estrada pisando casco duro pelo chão
Eu e meu alazão
Disparado galope somos raio trovão
Animais iguais sem cabresto
Disparando livres, galopando nos campos soltos nos ventos
Chuva caindo
Vira fumaça no quente do corpo,
Sigo sozinho se faço pouco não sei,
Eu faço minha história tingida de lua, tingida de sol,
Toco berrante sirvo a boiada, êiahhh!...
Sirvo a boiada, êiahhh!... êiahhh!
Vida marcada sigo adiante
Virando o dia, apertando o passo
Sumindo na noite pra logo chegar o abraço da minha morena
Que meu coração se apaixonou e agora chamo de amor êiôhhh!
Chamo de amor, êiôhhh!... êiôhh!
...
segunda-feira, 7 de junho de 2010
VOLTAR A MIL ANOS LUZ

VOLTAR A MIL ANOS LUZ
Nilton Bustamante
Eu gosto de você, gosto muito
Há alguma coisa que não sei dizer
Mas há felicidade no retorno
Eu gosto, gosto, gosto muito e tanto...
Quando a gente se vê
Quando nos falamos são falas de amor
Nossas imagens que criamos falam por si
Sempre dois mundos, sempre separados
Somente nos encontramos nos eclipses, que aos olhos de outros são escuridões
Para nós... melhor não dizer, não ficaria bem nesse mundo repleto de mil razões
Eu gosto de você, gosto muito
O que eu gosto eu mostro
O que você não gosta vê e respeita o que sou, como sou
Estou indo pra dentro de mim - não deixei recado de despedida - não me encontrei,
Talvez um dia, talvez um abraço, talvez risada, talvez um engasgo e tosse seca, não sei, não sei...
Eu meu imaginário ando astronauta
Falo sozinho, vou conhecendo por dentro e por fora a minha desordem
Pensamentos meteoritos as vezes bonitos, desfilam compulsivos, outras vezes perdidos em ameaças de mil órbitas,
Sinto-me planetário, sinto-me emocionado codificando emoções, navegando em mar de letras,
Pra entender pelos fragmentos a obra do todo que devo ser
Por tudo que já passei,
Por tudo que virá,
Por tudo que não entendo, admito, e cada vez mais, que há uma força, uma gravidade que me traz você
Para habitar meu desconhecido planetinha coração – nada de O Pequeno Príncipe, nada sei sobre jibóias –
Mas essa coisa, esse troço, seja lá o que for, sei, que gosto de você, gosto muito, minha viagem miragem que desafia o real
Faz-me esquecer que tenho muitos muitos medos, e me lanço inteiramente lunático galáctico ao seu encontro
Pra voltar agora depois de mil anos luz, saber que tudo mudou: Terra, plantas, ordem, desordem, tudo, tudo...
Menos o amor
.
quarta-feira, 2 de junho de 2010
CORAÇÃO ÚMIDO
Nem havia criado forças e você me toma novamente.
Essa mesma melodia que ainda em minha cabeça faz seus doces estragos: Misty Blue
E você murmura e me beija a boca
Espectro ou não, você e eu
Revivendo os mesmos olhares, o mesmo brilho, o mesmo castigo
Não mais sobraria essa fita, essa conquista, esse caso de se embriagar com copos vazios
http://www.youtube.com/watch?v=_35o6tymkd8&
terça-feira, 1 de junho de 2010
LONGE... LONGE... LONGE...

Nilton Bustamante
VAI, SEGUE O CAMINHO
PODE SER O SEU, PODE SER O MEU, PODE SER DE QUALQUER UM
VAI, VOA PENSAMENTO
PODE SER AVIÃO, PODE SER NUVEM ALGODÃO, UM QUALQUER
SE O LONGE NÃO EXISTE, EXISTE O CAMINHO A VOAR, A SEGUIR...
VAI, SEGUE O QUE VIRÁ
QUE AO LONGO DOS MEDOS MOSTRARÁ QUE TUDO FOI ILUSÃO
QUANDO NÃO SE QUIS O REAL DO ABRAÇO, PÉS FRIOS NO CHÃO
ROUPAS NO VARAL, CONTAS PENDURADAS PRA DECIDIR DEPOIS
VAI, VOA PENSAMENTO
DEIXA ACONTECER PELO MENOS NESSE MOMENTO O ENCONTRO
COM VOCÊ DENTRO DE VOCÊ
RODA CRIANÇA BRINCADEIRA QUE A VIDA NÃO LHE PERMITIU
FIQUE DE ROUPAS MAS FIQUE NUA, OLHE-SE NO ESPELHO MEU
E VEJA O QUE SE APRESENTA
VEJA NOS TEMPORAIS QUEM ESTÁ DEITADA EM MEU LEITO
CAVERNA NA MONTANHA ALTA, PROTEGIDA DE TUDO,
FOGUEIRA PERTO, CALOR DE GENTE
PELE COM PELE, DORMINDO ÀS VEZES, NOUTRAS DOCEMENTE NÃO...
ESTOU DO OUTRO DA RUA ACOMPANHANDO TUDO
O SEU OLHAR PELA JANELA À ESPERA DE SER FELIZ
O QUE EU POSSO MAIS DIZER?
VAI SEGUE O CAMINHO
PODE SER O SEU, PODE SER O MEU, PODE SER DE QUALQUER UM
ESPERO SER O NOSSO...
ESTOU AQUI AGORA, VENDO VOCÊ DORMINDO NO SOFÁ
LONGE... LONGE... LONGE...
EU SEU ANALISTA SEM PODER FALAR NADA, NADA, NADA...
O HOMEM DO RIO

HOMEM DO RIO
Nilton Bustamante
SERENO FINO VEM CAINDO EM MEU PEITO
DE TAL JEITO DE QUEM NÃO QUER ACORDAR
MANHÃ QUE AINDA ADORMECE NO MANTO DA NOITE VAZIA
OUÇO PRIMEIRO CANTO DA AVE NOTURNA
MINHA PRECE É PERMANECER CALADO, JEITO
DE QUEM ACREDITA QUE O DIA QUE VIRÁ SERÁ DIFERENTE
ENTRE CURVAS E CORRENTEZAS
ENTRE CALMARIAS E INCERTEZAS
SIGO O RIO, SIGO O RIO DE ÁGUAS PROFUNDAS, SIGO O RIO
COMO SIGO IGUAL MINHA ALMA DE MARCAS PROFUNDAS
ANDO EU LIVREMENTE COMO JEREMIAS,
QUANDO AINDA O NÃO HAVIAM ENCARCERADO
SIGO EU COM AS ÁGUAS E COM O VENTO
PORQUE AINDA NÃO CAÍ NA ARMADILHA
AINDA NÃO CONHECI QUEM ME ESTÁ POR VIR...
MINHAS ESTRELAS COMPANHEIRAS DE JORNADA
NO FRIO DAS NOITES E DAS MADRUGADAS
ARDEM FOGO, ARDEM PAIXÃO
SÃO TANTAS E TANTAS QUE NÃO LEMBRO OS NOMES
SÃO TANTAS E TANTAS QUE O SOBRENOME É SOLIDÃO
SEI QUE UM DIA A MANHÃ VIRÁ CRIANÇA
A TARDE SERÁ LIVRE SERÁ CRESCIDA, SERÁ MOÇA
SORRIRÁ MULHER AO ANOITECER PRA AMAR O HOMEM DO RIO
ENTRE CURVAS E CORRENTEZAS
ENTRE CALMARIAS E INCERTEZAS
EU ESPERO, EU ESPERO...
QUEM ME TRARÁ NO ESCURO DA NOITE O BRILHO DO RIO
MEIA-LUA
UMA PARTE À MOSTRA, FALAS CORTANTES ÀS CLARAS, MÃOS, BOCA E SEIOS,
NOUTRA O MISTÉRIO, ADIVINHAÇÃO BOLA DE CRISTAL E DESEJOS DOS AMANTES...
segunda-feira, 31 de maio de 2010
TROVA DO CABOCLO

TROVA DO CABOCLO
Nilton Bustamante
U galu nem chegô a cantá
I u terreru cumeçô a si agitá
Era u grandi dia du coronezinhu casá
Cum a linda Sinhazinha Dagmá
Cum grandi cuntentamentu du pessoá
Toda fazenda ficô especiá
Limpinha, pintadinha, bandeirinha em todo lugá
U coronezinhu ia casá cum a Sinhazinha Dagmá
Quem cumandava tudu era Dona Rosinha
Quarenta anus servindu a fazenda Sabiá
Menina di tudu já trabaiava até não se aguentá
Na vassora, nu fugão, lavandu ropa cum buneca di chitá
Us cunvidadu foi chegandu gritandu vivá!
Us rojão nu ar fazia pá, pá, pá!
A meninada curria pra lá e prá cá
U coronezinho ia casá cum a Sinhazinha Dagmá
U velhu coroné na miór bota foi festejá
Deu tapinha nas bunda das moça du lugá
A Sinhá du coroné descansava numa vala da Sabiá
Num ia vê seu fio casá cum a Sinhazinha Dagmá
Veiu us carru fazendu baruiu sem pará di buziná
Era us amigu du coronezinhu lá da Capitá
Di tudu mangava, chamava nóis di capiá
Eles inté ficarum di oio na linda Sinhazinha Dagmá
U coronezinhu caiu na zombereia pra agradá
Cumeçô da boa Dona Rosinha distratá
Chamô di bruxa véia, pru povu gargalhá
A pobre cuitada cumeçô inté chorá
A linda Sinhazinha Dagmá veiu desaprová
Deixe Sinhazinha, agora eu queru falá
Dona Rosinha avexada pidiu pru coronezinhu pará
Todu aquele povu logu cumeçô ajuntá
Coronezinhu eu não merecia essa desfeita
Bebezinhu nu meu peitu ocê veiu mamá
Dona Sinhá fraca da saúde, anu inteiru foi se cuidá
Ocê num se alembra, eu que te ensinei a andá
Uma verdade, uma justiça, tenhu que desabafá
U coroné seu pai até gente mando matá
Foi meu namoradu Zé, tocaiadu lá nu Arraiá
U coroné safadu, na bruta, cunseguiu me estrupá
Pensô que fez fio na minha barriga
Mas eu já tava prenha du meu Zé du Arraiá
Dona Sinhá sabendu di tudu doente foi se tratá
Adepois qui u fio nasceu, Dona Sinhá foi obrigada a adotá
Cuidei com amor di mãe sem ocê imaginá
Pois Dona Sinhá di desgostu na vala da Sabiá foi morá
Ocê sabe muito bem quantas coisas tive que aguentá
U poder do coroné ninguém podia desafiá
Não tinha mais rojão fazendo pá, pá, pá
Tudo tava queto no lugá
U véio coroné caiu sentadu sem pode falá
Era só pra ter o casamento do coronezinhu cum a Dagmá
I, pra terminá, Dona Rosinha foi imbora sem ismolá
U véio coroné i u coronezinhu cumeçarum a brigá
U povu levô as comida na sacola pra não disperdiçá
I a linda Sinhazinha Dagmá foi cum us moçu pra Capitá.
sábado, 29 de maio de 2010
BALÕES PENSAMENTOS
BALÕES PENSAMENTOS
Autor: Nilton Bustamante
Se você puder deixar o coração livre
Assim sem se preocupar
Mesmo por um instante viajar ao som de uma canção
Será algo pra não esquecer...
Deixar cada boa imagem ser um balão
Pra poder voar, flutuar
Ver de cima onde tudo fica mais colorido, mais bonito
Se você puder fazer uma trégua
Seja você quem for, seja o que jurou,
Tira esse peso, deixe o desejo sentir o que já implorou
Solte o que ficou sem espaço, o que não teve tempo
Em seu relógio,
Flutue leve, se solte inteiramente
Se acharem que você está diferente, que está maluca, então sorria,
Ande só de meias de mil cores por aí
Cantando se tiver vontade
Dançando se vier saudades,
Só não deixe pra lá a vontade de levar nas mãos seus balões brancos, verdes, amarelos, vermelhos e azuis...
Deixe tudo mais bonito, você vai ver que aquele medo vai desaparecer, outras pessoas virão atrás
Feito vagões felizes em dia de sol, trem descendo a serra, porque a vida foi feita pra sermos felizes
Ligue agora para alguém querido, diz que está contente, que está feliz
E quer dividir seu abraço, seu coração, seus balões brancos, verdes, amarelos, vermelhos e azuis...
A vida é viagem, e toda viagem você sabe bem, o que fica é apenas a emoção
O que fica é apenas a emoção de cada balão que deixamos em cada estação...
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Canção LINDÍSSIMA, vale a pena ouvir até o final.
Guinevere ( Rick Wakeman )
https://www.youtube.com/watch?v=0Nz-ihhb9ms
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quarta-feira, 26 de maio de 2010
" AMARELINHA "

terça-feira, 25 de maio de 2010
NOSSA ESTRELA
COMO SE EU PUDESSE
DESCOBERTA
CERTOS OLHARES

segunda-feira, 24 de maio de 2010
DOROTÉIA
DOROTÉIANilton Bustamante
Hoje estou assim, todo madrugada.
Dom Quixote querendo sua Dorotéia abrindo o coração, o sorriso e o que mais desejar.
Mostra o caminho longe de moinhos e dragões. Afinal, é madrugada, e as madrugadas são para se amar, se desejar. Seja hoje Dorotéia, ah, não importa o nome, não importa a hora, não importa a forma, se a noite é longa como suas pernas. Ah, eu sei, eu lhe cobicei, eu lhe medi. Seja donzela trêmula não de medo, mas de desejos. Desejos do momento da entrega, porque nada é melhor que a batalha da entrega, festejando a paz, desejando o amor.
Ah, Dorotéia, este sereno da madrugada empina seus bicos como empino meu cavalo de briosa linhagem. Deixa aquecê-la com meu hálito de sorte, com minha fome de homem pela mulher desejada... Ah, não quero dormir, não quero, ah, não quero, não quero... Como dormir, se há tanto por se fazer?
Mostra-me seu ninho, me aconchegue nos seus pêlos tão bem cuidados, porque você nessa madrugada, nessa noite, terá todos os nomes de todas as amantes da história, pra encobrir nosso segredo; será Dorotéia. Mas sua alma será somente a sua na minha, como indica seu nome, dominadora e voluntariosa e eu, arrepiado como seus seios, sendo eu brinquedo, seu cavalo. É madrugada... segue meus rastros.
domingo, 23 de maio de 2010
OUTDOOR
DELIRIUM
Nilton Bustamante
Em pleno sol do meio-dia
Subiu um frio pela minha espinha
Assim que a vi
Sofri o delírio de Dalí
Emocionei-me em plena avenida
Todos carros passando por mim
E eu nem aí
Diante dos meus olhos
Eu por inteiro como nunca
Me senti -
Roubei a flor mais bonita dos castelos de Sevilha
Dediquei ao amor
Imaginei nossos beijos em pleno sol do meio-dia
Eu todo delirium fazendo de nós dois os amantes
Como nunca houve antes
Assim que a vi, docemente... enlouqueci
sábado, 22 de maio de 2010
A LASCA DA MADEIRA

A LASCA DA MADEIRA
autor: Nilton Bustamante
Cinzento o céu. O azul se foi. Um vento insistia na busca de um agasalho. Os homens da aldeia: olhar pesado pelos caminhos de pedra. Eram tantas e tantos, para lugar nenhum.
Mulheres bordavam colorido na beirada dos portões. No fundo, fariam qualquer coisa para respirar outros ares, outros olhares...
Por toda parte o vazio. Por toda parte algo sonhando esperança.
Maria Cândida – Maria, como todas as Marias do mundo, homenagem àquela que foi mãe da criança bendita, como é bendita toda inocência, que cresceu na pele de presidiário, de perseguido, de confundido, de amado, de aguardado, de o filho Dele, de libertador, que do alto da cruz podia ver a Deus, e umedeceu o manto materno com soluços de dor, de gotas de sangue, desespero, compreensão e amor. Naufragou no mar salgado dos olhos de Maria, Maria! Maria! Como de todas as outras Marias do mundo que enterraram seus filhos no mar Morto das injustiças e brutalidades –, não conseguia bordar. Invejava aquelas que sustinham no colo o tecido branco, como um tapete à espera de cada trama para formar uma história. Ao contrário das outras moças, Maria Cândida não permanecia nas escadas do portão, não tinha coragem de seguir outros olhos, não se permitia sorrir, deixar-se ver. Não deitava, estendia-se como manta da própria cama. Era impossibilitada de andar ou sentar-se. Em sua cama um crucifixo, presente da tia, guardiã da igreja do lugar, com a orientação de rezar todas as contas.
Seus pais pesavam mais que os outros da aldeia antiga, de pedras, cercada em boa parte pelo mar, mar lusitano.
O céu já não tinha cor. O azul se foi. Sem indícios de melhoria.
A corrosão só não atacava a herança do orgulho da raça.
A fé unia aquele povo.
Maria Cândida, a que não andava, ouvidos abertos, aguçava os sentidos. Soube que para a aldeia da vizinha ilha, uma grande multidão convergia. Conversão de fé. Espalhou-se por todos os recantos que no alto do monte Piedade havia um Cruzeiro. Não um qualquer; esse milagroso. Como tudo aquilo que sinaliza salvação, recebia exércitos de soldados deserdados pela vida inglória. Carregavam sobre os ombros a falta de tudo: de dinheiro, de saúde, de moradia, de emprego, de paz... Ouviam-se maravilhas. Um pouco de razão, um pouco de ilusão, um pouco de profanação; de tudo um pouco. Mas o que importa se há esperança?
Maria Cândida, que era manta, brilhou em seus olhos algo que não conhecia. Queria ir para diante da cruz milagrosa. Quem sabe o que poderia acontecer? Pediu, implorou que a levassem. Logo a realidade falou mais alto. Não seria possível transportá-la, difícil viagem. Embarcações rudimentares de pescadores eram o meio. Conformada como todas as mantas alisadas para causar boa impressão, pediu à sua mãe, também Maria, para ir até ao Cruzeiro. Trouxesse dele, lasca que fosse, um pouco daquele milagre, um pouco daquela esperança, para suprir o vazio que sempre carregou sobre os seus ombros que de tão pesado ia ao fundo da própria alma. De tão pesado, não conseguia andar, ou sentar-se. Só manta.
Sua mãe, Maria, logo cedo, partiu entre pedras, via crucis, entre águas, entre desesperos e sonhos; chegou ao destino. Gritos, insanidade, de homens e mulheres. Não entendia o que se passava. Histeria coletiva. Logo, pegando um homem pelos colarinhos, pôde entender. Alguém, durante a noite, ateara fogo no madeiro da cruz. Desesperada, largou o homem e correu, chorando, até ao Cruzeiro. Nem cinzas ficaram. O vento levou, borrando a rua. Maria ficou ali parada. Sua filha não lhe saía da cabeça. Sentia o fracasso se agigantando. Alucinada, culpava-se mais uma vez. Via imagens terríveis em sua mente: pregava sua própria filha, estendida, na cama-cárcere. Retornando, ainda no porto, viu chegar a embarcação. O que dizer, o que fazer, quando chegar diante da filha? Mão delicada pousou em seu ombro. Assustada, olhou para trás e viu uma mulher, senhora. Roupas estranhas. Estrangeira, talvez. Antes mesmo que perguntasse algo, a senhora olhou-a com firmeza, foi até o barco ancorado, trouxe uma lasca, quase imperceptível, e entregou-lhe. Que loucura é essa? pensou. Como lendo seus pensamentos, a inesperada senhora respondeu-lhe: – Você não veio com uma missão para esta localidade? Não pediu sua filha, lasca que fosse, de um pouco do milagre, um pouco da esperança, então? Na primeira distração do olhar de Maria, a súbita senhora se foi. Perguntou às pessoas ao redor, não souberam responder, não restando outra alternativa que tomar a embarcação.
Maria Cândida, em crise de ansiedade, logo gritou num fôlego só ao avistar sua mãe:
– O que trouxe para mim? Trouxe o que eu pedi? Como era o Cruzeiro?
Maria, a mãe, nada pôde falar. Garganta apertada. Abriu a mão e entregou a lasca de madeira à filha.
A moça pôs-se a orar, orar, orar... De repente, parou e disparou:
– Então é isso, mamãe? Que ideia luminosa. É a lasca do Cruzeiro milagreiro? Muito, mas muito obrigada, mamãe querida. Eu sabia que podia confiar na senhora. Foi o melhor presente da minha vida – completou com contentamento.
Sua mãe, sem coragem, nada respondeu.
Os dias foram se passando, as preces persistindo. Nada de novo aos olhos da mãe.
Numa manhã, o azul voltou. Maria Cândida pediu para colocar sua cama no portão de sua casa, coisa que nunca fizera. Pediu, ainda, pano branco e linhas coloridas. Começou a bordar. Quem diria, começou a bordar.
Quando Maria, mãe, olhou para a rua, viu aquela senhora do porto chegar sorrindo. Sem que Maria Cândida percebesse qualquer coisa, Maria aproximou-se, ríspida:
– Como pude oferecer tamanha mentira? Fazer minha filha acreditar que essa era a lasca da cruz milagrosa, quando era, sim, a de um barco?
Sem mudar o semblante de alegria, a senhora respondeu:
– A fé, minha boa filha, tem um tanto de sublime, um tanto da simplicidade. A fé é operada pela ignorância na busca do extraordinário, mas extraordinário mesmo é a própria fé, a confiança em algo que a percepção da razão e conhecimento conquistado não conseguem alcançar ou empreender. Quem consegue explicar a fé? Quem pode dizer como a fé opera? Podemos dizer, sim, o que salva é a fé e não o "pau da barca" ou da cruz. Veja como está feliz sua filha. Ela, agora, com sensibilidade, borda seus talentos e sonhos, fixando-os no pano em que antes só tinha o branco do tudo a fazer. A propósito, eu não retirei lasca do barco, como pensa, retirei da cruz que suspendeu meu filho na dor do mundo. Meu filho... – falando baixo, com ternura – que saudades do menininho em meus braços no ar quente das ventas dos animais. Do menino que corria nas elevações perto de casa, falando sozinho. Do menino que ajudava ao pai em seu ofício. Do meu menino inocente, como são todas as outras inocências infantis, que cresceu na pele de presidiário, de perseguido, de confundido, de amado, de aguardado, de o filho Dele, de libertador, que do alto da cruz podia ver a Deus; umedeceu o meu manto materno com soluços de dor, gotas de sangue, desespero, compreensão e amor, o meu menino. Naufragou no mar salgado dos meus olhos, assim como de outras mães que enterraram a seus filhos no mar Morto das injustiças e brutalidade. Ainda, as religiões, ah, as religiões... fizeram-no, meu menino, crucifixo, preso arrastando as contas, como arrastam os condenados os seus grilhões.
Maria, pasma, nada a dizer, ajoelhou-se e chorou.
– Mamãe, por que chora? – perguntou a nova bordadeira.
Ao levantar os olhos, Maria, espantada e emocionada, somente enxergou sua filha. Aproximou-se e perguntou-lhe, sinceramente:
– Filha, você está feliz, mesmo não podendo andar? Será que você devia mesmo se apoiar numa simples lasca de madeira?
– Eu sei, mamãe, que é uma simples lasca, mas cada um precisa de sua "lasca de madeira" para continuar acreditando em algo que vale a pena para viver, para se apoiar, para despertar a fé. Eu sei, eu sei, é verdade, não estou andando, mas consegui algo melhor, consegui bordar...



