sexta-feira, 11 de junho de 2010

O QUE ESCREVO



O QUE ESCREVO
autor: Nilton Bustamante

Eu sei o que escrevo é distância
É saudades
Eu sei o que escrevo é busca
É uma falta
Quando eu poderia acordar ao teu lado
E me sentir feliz
Encontrar teus dias aos finais das tardes
E falar de amor

Eu sei o que escrevo é sincero, sincero
Como teu olhar
Na exatidão dos tempos levando os dias
Esta dor no peito
Quando poderíamos nos encontrar
Resolver o drama, esta novela,
Acabar de vez com esta distância dos lábios,
Dos abraços que não se encontram
Acalmar de vez esta vontade
E nos amar sem medo de cairmos na movediça sentença
Da ampulheta a nos consumir no tempo de existir
Enquanto isso imaginar-te dormindo
Vestindo um pijama meu pra não dormir só,
Lembrar de palavras que falei pra sonhar-te filme de amor

Eu sei o que escrevo é distância
É saudades

Eu sei o que escrevo é busca,
É uma falta...

É essa vontade de chorar


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música: David Bustamante (Espanha)
http://www.youtube.com/watch?v=C61iq7vurKU&feature=channel


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APERTANDO O PASSO


APERTANDO O PASSO
Nilton Bustamante

Chuva caindo no mato
Guardo guardado em meu coração
Lama molhada poeira chorada
De quem segue sem estrada pisando casco duro pelo chão


Eu e meu alazão
Disparado galope somos raio trovão
Animais iguais sem cabresto
Disparando livres, galopando nos campos soltos nos ventos


Chuva caindo
Vira fumaça no quente do corpo,
Sigo sozinho se faço pouco não sei,
Eu faço minha história tingida de lua, tingida de sol,
Sou o que sou e mais nada,
Toco berrante sirvo a boiada, êiahhh!...
Sirvo a boiada, êiahhh!... êiahhh!


Vida marcada sigo adiante
Virando o dia, apertando o passo
Sumindo na noite pra logo chegar o abraço da minha morena
Que meu coração se apaixonou e agora chamo de amor êiôhhh!
Chamo de amor, êiôhhh!... êiôhh!
...

segunda-feira, 7 de junho de 2010

VOLTAR A MIL ANOS LUZ


VOLTAR A MIL ANOS LUZ
   Nilton Bustamante

Eu gosto de você, gosto muito
Há alguma coisa que não sei dizer
Mas há felicidade no retorno
Eu gosto, gosto, gosto muito e tanto...

Quando a gente se vê
Quando nos falamos são falas de amor
Nossas imagens que criamos falam por si
Sempre dois mundos, sempre separados
Somente nos encontramos nos eclipses, que aos olhos de outros são escuridões
Para nós... melhor não dizer, não ficaria bem nesse mundo repleto de mil razões

Eu gosto de você, gosto muito
O que eu gosto eu mostro
O que você não gosta vê e respeita o que sou, como sou
Estou indo pra dentro de mim - não deixei recado de despedida - não me encontrei,
Talvez um dia, talvez um abraço, talvez risada, talvez um engasgo e tosse seca, não sei, não sei...

Eu meu imaginário ando astronauta
Falo sozinho, vou conhecendo por dentro e por fora a minha desordem
Pensamentos meteoritos as vezes bonitos, desfilam compulsivos, outras vezes perdidos em ameaças de mil órbitas,
Sinto-me planetário, sinto-me emocionado codificando emoções, navegando em mar de letras,
Pra entender pelos fragmentos a obra do todo que devo ser

Por tudo que já passei,
Por tudo que virá,
Por tudo que não entendo, admito, e cada vez mais, que há uma força, uma gravidade que me traz você
Para habitar meu desconhecido planetinha coração – nada de O Pequeno Príncipe, nada sei sobre jibóias –
Mas essa coisa, esse troço, seja lá o que for, sei, que gosto de você, gosto muito, minha viagem miragem que desafia o real
Faz-me esquecer que tenho muitos muitos medos, e me lanço inteiramente lunático galáctico ao seu encontro
Pra voltar agora depois de mil anos luz, saber que tudo mudou: Terra, plantas, ordem, desordem, tudo, tudo...
Menos o amor

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quarta-feira, 2 de junho de 2010

CORAÇÃO ÚMIDO


CORAÇÃO ÚMIDO
Autor: Nilton Bustamante

Nem sequer havia saído da idade de sonhar
Nem havia secado meu coração
E você aparece do nada feito espectro que retorna pra ver o que deixou pra trás

Nem havia criado forças e você me toma novamente.
Essa mesma melodia que ainda em minha cabeça faz seus doces estragos: Misty Blue
Nos faz abraçar e dançar em silêncio absurdo, no meio da sala,
Entre abajures e tomadas
E você murmura e me beija a boca
Meu coração me pressiona, se entrega, se aconchega ao seu...

Espectro ou não, você e eu
Nas tardes sem ninguém em casa
Revivendo os mesmos olhares, o mesmo brilho, o mesmo castigo
Amor desses sem fim
Sabendo que a música logo acabaria de tocar,
Que o relógio marcaria um ponteiro para cada um de nós,
Que o telefone logo tocaria,
Não mais sobraria essa fita, essa conquista, esse caso de se embriagar com copos vazios

Meu coração ainda úmido
Eu sem você, outra vez.


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terça-feira, 1 de junho de 2010

LONGE... LONGE... LONGE...


LONGE... LONGE... LONGE...
Nilton Bustamante

VAI, SEGUE O CAMINHO
PODE SER O SEU, PODE SER O MEU, PODE SER DE QUALQUER UM
VAI, VOA PENSAMENTO
PODE SER AVIÃO, PODE SER NUVEM ALGODÃO, UM QUALQUER
SE O LONGE NÃO EXISTE, EXISTE O CAMINHO A VOAR, A SEGUIR...

VAI, SEGUE O QUE VIRÁ
QUE AO LONGO DOS MEDOS MOSTRARÁ QUE TUDO FOI ILUSÃO
QUANDO NÃO SE QUIS O REAL DO ABRAÇO, PÉS FRIOS NO CHÃO
ROUPAS NO VARAL, CONTAS PENDURADAS PRA DECIDIR DEPOIS
VAI, VOA PENSAMENTO

DEIXA ACONTECER PELO MENOS NESSE MOMENTO O ENCONTRO
COM VOCÊ DENTRO DE VOCÊ
RODA CRIANÇA BRINCADEIRA QUE A VIDA NÃO LHE PERMITIU
FIQUE DE ROUPAS MAS FIQUE NUA, OLHE-SE NO ESPELHO MEU
E VEJA O QUE SE APRESENTA

VEJA NOS TEMPORAIS QUEM ESTÁ DEITADA EM MEU LEITO
CAVERNA NA MONTANHA ALTA, PROTEGIDA DE TUDO,
FOGUEIRA PERTO, CALOR DE GENTE
PELE COM PELE, DORMINDO ÀS VEZES, NOUTRAS DOCEMENTE NÃO...

ESTOU DO OUTRO DA RUA ACOMPANHANDO TUDO
O SEU OLHAR PELA JANELA À ESPERA DE SER FELIZ
O QUE EU POSSO MAIS DIZER?

VAI SEGUE O CAMINHO
PODE SER O SEU, PODE SER O MEU, PODE SER DE QUALQUER UM
ESPERO SER O NOSSO...

ESTOU AQUI AGORA, VENDO VOCÊ DORMINDO NO SOFÁ
LONGE... LONGE... LONGE...
EU SEU ANALISTA SEM PODER FALAR NADA, NADA, NADA...

O HOMEM DO RIO



HOMEM DO RIO
Nilton Bustamante

SERENO FINO VEM CAINDO EM MEU PEITO
DE TAL JEITO DE QUEM NÃO QUER ACORDAR
MANHÃ QUE AINDA ADORMECE NO MANTO DA NOITE VAZIA

OUÇO PRIMEIRO CANTO DA AVE NOTURNA
MINHA PRECE É PERMANECER CALADO, JEITO
DE QUEM ACREDITA QUE O DIA QUE VIRÁ SERÁ DIFERENTE

ENTRE CURVAS E CORRENTEZAS
ENTRE CALMARIAS E INCERTEZAS
SIGO O RIO, SIGO O RIO DE ÁGUAS PROFUNDAS, SIGO O RIO
COMO SIGO IGUAL MINHA ALMA DE MARCAS PROFUNDAS

ANDO EU LIVREMENTE COMO JEREMIAS,
QUANDO AINDA O NÃO HAVIAM ENCARCERADO
SIGO EU COM AS ÁGUAS E COM O VENTO
PORQUE AINDA NÃO CAÍ NA ARMADILHA
AINDA NÃO CONHECI QUEM ME ESTÁ POR VIR...

MINHAS ESTRELAS COMPANHEIRAS DE JORNADA
NO FRIO DAS NOITES E DAS MADRUGADAS
ARDEM FOGO, ARDEM PAIXÃO
SÃO TANTAS E TANTAS QUE NÃO LEMBRO OS NOMES
SÃO TANTAS E TANTAS QUE O SOBRENOME É SOLIDÃO

SEI QUE UM DIA A MANHÃ VIRÁ CRIANÇA
A TARDE SERÁ LIVRE SERÁ CRESCIDA, SERÁ MOÇA
SORRIRÁ MULHER AO ANOITECER PRA AMAR O HOMEM DO RIO
ENTRE CURVAS E CORRENTEZAS
ENTRE CALMARIAS E INCERTEZAS

EU ESPERO, EU ESPERO...
QUEM ME TRARÁ NO ESCURO DA NOITE O BRILHO DO RIO
MEIA-LUA
UMA PARTE À MOSTRA, FALAS CORTANTES ÀS CLARAS, MÃOS, BOCA E SEIOS,
NOUTRA O MISTÉRIO, ADIVINHAÇÃO BOLA DE CRISTAL E DESEJOS DOS AMANTES...

segunda-feira, 31 de maio de 2010

TROVA DO CABOCLO


TROVA DO CABOCLO
Nilton Bustamante


U galu nem chegô a cantá
I u terreru cumeçô a si agitá
Era u grandi dia du coronezinhu casá
Cum a linda Sinhazinha Dagmá

Cum grandi cuntentamentu du pessoá
Toda fazenda ficô especiá
Limpinha, pintadinha, bandeirinha em todo lugá
U coronezinhu ia casá cum a Sinhazinha Dagmá

Quem cumandava tudu era Dona Rosinha
Quarenta anus servindu a fazenda Sabiá
Menina di tudu já trabaiava até não se aguentá
Na vassora, nu fugão, lavandu ropa cum buneca di chitá

Us cunvidadu foi chegandu gritandu vivá!
Us rojão nu ar fazia pá, pá, pá!
A meninada curria pra lá e prá cá
U coronezinho ia casá cum a Sinhazinha Dagmá

U velhu coroné na miór bota foi festejá
Deu tapinha nas bunda das moça du lugá
A Sinhá du coroné descansava numa vala da Sabiá
Num ia vê seu fio casá cum a Sinhazinha Dagmá

Veiu us carru fazendu baruiu sem pará di buziná
Era us amigu du coronezinhu lá da Capitá
Di tudu mangava, chamava nóis di capiá
Eles inté ficarum di oio na linda Sinhazinha Dagmá

U coronezinhu caiu na zombereia pra agradá
Cumeçô da boa Dona Rosinha distratá
Chamô di bruxa véia, pru povu gargalhá
A pobre cuitada cumeçô inté chorá

A linda Sinhazinha Dagmá veiu desaprová
Deixe Sinhazinha, agora eu queru falá
Dona Rosinha avexada pidiu pru coronezinhu pará
Todu aquele povu logu cumeçô ajuntá

Coronezinhu eu não merecia essa desfeita
Bebezinhu nu meu peitu ocê veiu mamá
Dona Sinhá fraca da saúde, anu inteiru foi se cuidá
Ocê num se alembra, eu que te ensinei a andá

Uma verdade, uma justiça, tenhu que desabafá
U coroné seu pai até gente mando matá
Foi meu namoradu Zé, tocaiadu lá nu Arraiá
U coroné safadu, na bruta, cunseguiu me estrupá

Pensô que fez fio na minha barriga
Mas eu já tava prenha du meu Zé du Arraiá
Dona Sinhá sabendu di tudu doente foi se tratá
Adepois qui u fio nasceu, Dona Sinhá foi obrigada a adotá

Cuidei com amor di mãe sem ocê imaginá
Pois Dona Sinhá di desgostu na vala da Sabiá foi morá
Ocê sabe muito bem quantas coisas tive que aguentá
U poder do coroné ninguém podia desafiá

Não tinha mais rojão fazendo pá, pá, pá
Tudo tava queto no lugá
U véio coroné caiu sentadu sem pode falá
Era só pra ter o casamento do coronezinhu cum a Dagmá

I, pra terminá, Dona Rosinha foi imbora sem ismolá
U véio coroné i u coronezinhu cumeçarum a brigá
U povu levô as comida na sacola pra não disperdiçá
I a linda Sinhazinha Dagmá foi cum us moçu pra Capitá.

sábado, 29 de maio de 2010

BALÕES PENSAMENTOS



BALÕES PENSAMENTOS
Autor: Nilton Bustamante

Se você puder deixar o coração livre
Assim sem se preocupar
Mesmo por um instante viajar ao som de uma canção
Será algo pra não esquecer...

Deixar cada boa imagem ser um balão
Pra poder voar, flutuar
Ver de cima onde tudo fica mais colorido, mais bonito

Se você puder fazer uma trégua
Seja você quem for, seja o que jurou,
Tira esse peso, deixe o desejo sentir o que já implorou

Solte o que ficou sem espaço, o que não teve tempo
Em seu relógio,
Flutue leve, se solte inteiramente
Se acharem que você está diferente, que está maluca, então sorria,
Ande só de meias de mil cores por aí
Cantando se tiver vontade
Dançando se vier saudades,
Só não deixe pra lá a vontade de levar nas mãos seus balões brancos, verdes, amarelos, vermelhos e azuis...

Deixe tudo mais bonito, você vai ver que aquele medo vai desaparecer, outras pessoas virão atrás
Feito vagões felizes em dia de sol, trem descendo a serra, porque a vida foi feita pra sermos felizes

Ligue agora para alguém querido, diz que está contente, que está feliz
E quer dividir seu abraço, seu coração, seus balões brancos, verdes, amarelos, vermelhos e azuis...

A vida é viagem, e toda viagem você sabe bem, o que fica é apenas a emoção
O que fica é apenas a emoção de cada balão que deixamos em cada estação...




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Canção LINDÍSSIMA, vale a pena ouvir até o final.
Guinevere ( Rick Wakeman )
https://www.youtube.com/watch?v=0Nz-ihhb9ms


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quarta-feira, 26 de maio de 2010

" AMARELINHA "



"AMARELINHA"
autor: Nilton Bustamante

Um pé cá, outro acolá
Num momento aqui, noutro sei lá!

Começa menina, acaba mulher,
Diz que o jogo é mesmo assim, "amarelinha"
Começa com um beijo e como termina... hummm?!

Sigo tua dança, brinco teu jogo,
Juntos chegamos e sumimos no céu...
Quando parece que viramos santos
Começa-se tudo novo:
Primeiro um beijo, depois...

Diz que o jogo é mesmo assim,
Começa com um beijo, quem sabe amor

Sabe-se lá?
Sabe-se lá?

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Alice Fredenham singing 'My Funny Valentine'
https://www.youtube.com/watch?v=IChJ6eO3k48


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terça-feira, 25 de maio de 2010

NOSSA ESTRELA



NOSSA ESTRELA
Nilton Bustamante

não precisamos dizer
não precisamos escrever num diário qualquer
porque os nossos olhares já delatam tudo; destruímos um ao outro, destruímos tudo e a nós mesmos... A cada dia tudo termina pra dar lugar ao novo que surge com novas forças, novos universos... O mel e o fel de ontem, hoje terão outras receitas. Vamos juntando nossos pedacinhos pra construírmos algo que possamos um dia nos reconhecer.

Que bom que está sendo eu com você!

Que bom que estamos construíndo juntos, aos pouquinhos a nossa estrela.

COMO SE EU PUDESSE


COMO SE EU PUDESSE
Nilton Bustamante


É algo tão extraordinário, é como se eu pudesse pegar emprestado por um instante, piscar de olhos, o coração de Deus e colocar no lugar do meu e passasse a sentir o
que realmente significa o Amor...

DESCOBERTA


DESCOBERTA
Nilton Bustamante


Abre o campo, expõe o coração, não deixa que nada se esconda.
Traz pra perto o que não pode ficar distante...

Sentir o coração encostar em outro, faz um bem danado!
Temos que aproveitar essa descoberta incrível: o abraço!
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CERTOS OLHARES


CERTOS OLHARES
Nilton Bustamante

Dizem que os olhos
São as janelas d’alma
E eu penso em muitos olhares:
Olhar das lentes
Olhar de boneca
Olhar de quem já foi gente
Olhar no olhar
Olhar navalha
Olhar canalha
Olhar torturado
Olhar apertado
Olhar de quem já não sente
Olhar que se desvia
Olhar fantoche
Olhar que esconde lágrimas
Olhar de quem trabalhou
Olhar de quem não ganhou
Olhar de quem secou
Olhar fechado
Olhar vazio
Olhar parado
Janela d’alma
Janela d’alma


Olhar colorido
Olhar preto e branco
Olhar sem cor
Olhar medroso
Olhar ganancioso
Olhar delator
Olhar falso
Olhar maquiavélico
Olhar infame
Olhar distante
Olhar compassivo
Olhar absorto
Olhar amigo
Olhar vivo
Olhar inimigo
Olhar perdido
Olhar lânguido
Olhar entristecido
Olhar irado
Olhar inflamado
Olhar de reprovação
Janela d’alma
Janela d’alma


Olhar sublime
Olhar orgulhoso
Olhar vaidoso
Olhar cruzado
Olhar esquecido
Olhar inteligente
Olhar que segue
Olhar que persegue
Olhar que pede
Olhar intrigado
Olhar trincado
Olhar vitrificado
Olhar infantil
Olhar malandro
Olhar drogado
Olhar que assiste
Olhar que insiste
Olhar que desiste
Olhar flagrado
Olhar complexado
Olhar culpado
Janela d’alma
Janela d’alma


Olhar que pesquisa
Olhar que admira
Olhar que vislumbra
Olhar ressecado
Olhar lacrimoso
Olhar sorridente
Olhar que brilha
Olhar cúmplice
Olhar que hipnotiza
Olhar que sabe
Olhar que ignora
Olhar que esnoba
Olhar que fulmina
Olhar de nostalgia
Olhar que inspira
Olhar de fome
Olhar que consome
Olhar tique nervoso
Olhar gelado
Olhar quente
Olhar indecente
Janela d’alma
Janela d’alma


Olhar que ensina
Olhar que cala
Olhar que maltrata
Olhar “olho gordo”
Olhar de “faca”
“Mau olhado”
Olhar que perturba
Olhar que acalma
Olhar que prende
Olhar de luar
Olhar de mar
Olhar de se apaixonar
Olhar que mente
Olhar demente
Olhar da mente
Olhar jovem
Olhar senil
Olhar de quem nunca viu
Olhar de quem sabe
Olhar de quem acha que sabe
Olhar de quem não quer saber
Janela d’alma
Janela d’alma


Olhar de quem se prostituiu
Olhar de quem se iludiu
Olhar de quem pariu
Olhar primavera
Olhar inverno
Olhar sem estação
Olhar órfão
Olhar sem futuro
Olhar que espreita
Olhar sentimental
Olhar sem sentido
Olhar curinga
Olhar invejoso
Olhar caridoso
Olhar ciumento
Olhar de águia
Olhar na mira
Olhar da morte
Olhar de “peixe-morto”
Olhar de amor
Olhar de cio
Janela d’alma
Janela d’alma


Quando você, ainda distante,
Caminha para mim, seu olhar
É que primeiro a me tocar
Vira-me do avesso
Sem poder respirar
Minha alma a se extasiar
Ah! Este seu olhar incandescente
De desejos de quem ama
Quero crer:
Janela d’alma
Janela d’alma

segunda-feira, 24 de maio de 2010

DOROTÉIA

DOROTÉIA
Nilton Bustamante


Hoje estou assim, todo madrugada.

Dom Quixote querendo sua Dorotéia abrindo o coração, o sorriso e o que mais desejar.

Mostra o caminho longe de moinhos e dragões. Afinal, é madrugada, e as madrugadas são para se amar, se desejar. Seja hoje Dorotéia, ah, não importa o nome, não importa a hora, não importa a forma, se a noite é longa como suas pernas. Ah, eu sei, eu lhe cobicei, eu lhe medi. Seja donzela trêmula não de medo, mas de desejos. Desejos do momento da entrega, porque nada é melhor que a batalha da entrega, festejando a paz, desejando o amor.

Ah, Dorotéia, este sereno da madrugada empina seus bicos como empino meu cavalo de briosa linhagem. Deixa aquecê-la com meu hálito de sorte, com minha fome de homem pela mulher desejada... Ah, não quero dormir, não quero, ah, não quero, não quero... Como dormir, se há tanto por se fazer?

Mostra-me seu ninho, me aconchegue nos seus pêlos tão bem cuidados, porque você nessa madrugada, nessa noite, terá todos os nomes de todas as amantes da história, pra encobrir nosso segredo; será Dorotéia. Mas sua alma será somente a sua na minha, como indica seu nome, dominadora e voluntariosa e eu, arrepiado como seus seios, sendo eu brinquedo, seu cavalo. É madrugada... segue meus rastros.

domingo, 23 de maio de 2010

OUTDOOR

OUTDOOR
Nilton Bustamante

Distraído, quase trombo com alguém, na calçada.
Em exercício de reconhecimento espacial do ambiente, piscar de olhos, deparo-me com um homem, sessenta anos na aparência talvez, absorto, boquiaberto, ao mirar sem palavras o outdoor bem diante de nós.
A curiosidade é companheira que não pede licença, e leva meu olhar, como homem biônico, ao detectar com toda atenção de espião o que se apresenta nessa placa ao ar livre. É a figura da atriz global, Suzana Vieira, em sorriso convidativo — sua marca registrada —, em corpo inteiro. Claro, vendia algum anúncio, mas seu sorriso é estrada que merece toda atenção e que não me deixa ler os letreiros.
Deixo os dois para trás, sigo minha caminhada, olho mais uma vez e o homem continua estático, sabe-se lá o que imagina. Sigo distraído novamente. Ao atravessar a rua — estrelas dos céus!, brado —, quem eu vejo? Não acredito. Regulo minhas pupilas, procuro nitidez. Devo estar sonhando. Nada mais, nada menos, que a Suzana Vieira, que sorri ao passar por mim. E eu, ali, sem entender nada, mais um boquiaberto. Será que estão filmando algo sobre o outdoor? — penso, rapidamente.
Em golpe de sorte, nem acredito, ela se volta e diz algo. Não entendo.
Pacientemente ela repete: — Nunca viu uma estrela de perto, não?
Embarco nesse glamour que está ao menos em minha cabeça e disparo: — Assim com esse brilho, não. Deixou-me ofuscado. Agora preciso que você dê-me sua mão para eu atravessar a rua. Ela ri gostosamente. E não é que ela me atende? Pega-me nas mãos -Será que a diferença de idade nos atrai?- Logo que isso acontece toca o seu celular. E o som nas alturas uma voz masculina, tremendamente apaixonada, no cio, começa a declarar as mais íntimas intenções. Ela, a Suzana, fica em transe, hipnótica. Junta seu corpo ao meu enquanto ouve o comando da voz imperativa. — Quero que feche os olhos e entreabra seus lábios gostosos e ponha-os juntos aos meus... Ela o atende incondicional e põe seus lábios nos meus. Eu ficando sem fôlego. E assim, a cada comando, ela o atende em mim. E eu, excitado cada vez mais, abraçado, quero dizer, colado em sua cintura, junto aos nossos calores, também com meus ouvidos aguçados, próximos ao celular generoso.
E a voz insiste: — Eu sei que seus seios estão estufados, suados... posso sentir meus dedos bem devagar pelo seu decote; sinta o escorregar ousado de minhas mãos curiosas para ver o que descobrem... Quando dou por mim, vejo os seios dela de fato estufados, escorrendo gotículas de desejos, e os meus dedos sumindo sob o decote, contornando seus mamilos, ora suave, ora rudemente. E ela aos suspiros...
Nossa, agora sou eu quem está atendendo essa voz maluca? E cada vez mais, ficávamos querendo saber qual é o próximo comando dessa voz. Será um vouyer descarado, esse filho da boa mãe? Nem me dou conta que estamos num canto da calçada, via pública, sujeitos aos olhares públicos. Mas, o que importa nessas horas?
Nossas saliências e vãos combinam-se sem cerimônias, ensaiando ritmo lento, com forte pressão, para não chamar a atenção, como se isso fosse possível. Ao mordiscar seu pescoço com a jugular pedindo devassidão, e nossas mãos se encontrando no baixo equador, em movimentos comuns desses momentos, beirando irracionalidade, levo tremendo susto. Estou enroscado em várias ondas, como uma presa fácil em teia de aranha voraz. Começo a me desvencilhar e puxar esses cordões e claramente os vejo ligados à mente do homem há pouco conhecido.
Acabo por gargalhar.
Eu estava o tempo todo, enroscado nas ondas mentais do homem boquiaberto, diante do outdoor, em seus delírios secretos, em companhia da Suzana Vieira, imaginária.
E eu ali, caído de tanto rir, preso nessa armadilha, acordo com cara de idiota.

DELIRIUM


DELIRIUM
Nilton Bustamante

Em pleno sol do meio-dia
Subiu
um frio pela minha espinha

Assim que a vi
Sofri o delírio de Dalí

Ouvi Beatles cantando samba do Cartola
Emocionei-me em plena avenida

Todos carros passando por mim
E eu nem aí


- Minha Lady Godiva em pêlos cavalgava, desfilava
Diante dos meus olhos
Eu por inteiro como nunca
Me senti
-



Roubei a flor mais bonita dos castelos de Sevilha
Dediquei ao amor
Imaginei nossos beijos em pleno sol do meio-dia
Eu todo
delirium
fazendo de nós dois os amantes
Como nunca houve antes



Em pleno sol do meio-dia,
Assim que a vi, docemente... enlouqueci
...

sábado, 22 de maio de 2010

A LASCA DA MADEIRA



(mensagem de fé e esperança...)

A LASCA DA MADEIRA
autor: Nilton Bustamante

Cinzento o céu. O azul se foi. Um vento insistia na busca de um agasalho. Os homens da aldeia: olhar pesado pelos caminhos de pedra. Eram tantas e tantos, para lugar nenhum.

Mulheres bordavam colorido na beirada dos portões. No fundo, fariam qualquer coisa para respirar outros ares, outros olhares...

Por toda parte o vazio. Por toda parte algo sonhando esperança.

Maria Cândida – Maria, como todas as Marias do mundo, homenagem àquela que foi mãe da criança bendita, como é bendita toda inocência, que cresceu na pele de presidiário, de perseguido, de confundido, de amado, de aguardado, de o filho Dele, de libertador, que do alto da cruz podia ver a Deus, e umedeceu o manto materno com soluços de dor, de gotas de sangue, desespero, compreensão e amor. Naufragou no mar salgado dos olhos de Maria, Maria! Maria! Como de todas as outras Marias do mundo que enterraram seus filhos no mar Morto das injustiças e brutalidades –, não conseguia bordar. Invejava aquelas que sustinham no colo o tecido branco, como um tapete à espera de cada trama para formar uma história. Ao contrário das outras moças, Maria Cândida não permanecia nas escadas do portão, não tinha coragem de seguir outros olhos, não se permitia sorrir, deixar-se ver. Não deitava, estendia-se como manta da própria cama. Era impossibilitada de andar ou sentar-se. Em sua cama um crucifixo, presente da tia, guardiã da igreja do lugar, com a orientação de rezar todas as contas.

Seus pais pesavam mais que os outros da aldeia antiga, de pedras, cercada em boa parte pelo mar, mar lusitano.

O céu já não tinha cor. O azul se foi. Sem indícios de melhoria.

A corrosão só não atacava a herança do orgulho da raça.

A fé unia aquele povo.

Maria Cândida, a que não andava, ouvidos abertos, aguçava os sentidos. Soube que para a aldeia da vizinha ilha, uma grande multidão convergia. Conversão de fé. Espalhou-se por todos os recantos que no alto do monte Piedade havia um Cruzeiro. Não um qualquer; esse milagroso. Como tudo aquilo que sinaliza salvação, recebia exércitos de soldados deserdados pela vida inglória. Carregavam sobre os ombros a falta de tudo: de dinheiro, de saúde, de moradia, de emprego, de paz... Ouviam-se maravilhas. Um pouco de razão, um pouco de ilusão, um pouco de profanação; de tudo um pouco. Mas o que importa se há esperança?

Maria Cândida, que era manta, brilhou em seus olhos algo que não conhecia. Queria ir para diante da cruz milagrosa. Quem sabe o que poderia acontecer? Pediu, implorou que a levassem. Logo a realidade falou mais alto. Não seria possível transportá-la, difícil viagem. Embarcações rudimentares de pescadores eram o meio. Conformada como todas as mantas alisadas para causar boa impressão, pediu à sua mãe, também Maria, para ir até ao Cruzeiro. Trouxesse dele, lasca que fosse, um pouco daquele milagre, um pouco daquela esperança, para suprir o vazio que sempre carregou sobre os seus ombros que de tão pesado ia ao fundo da própria alma. De tão pesado, não conseguia andar, ou sentar-se. Só manta.

Sua mãe, Maria, logo cedo, partiu entre pedras, via crucis, entre águas, entre desesperos e sonhos; chegou ao destino. Gritos, insanidade, de homens e mulheres. Não entendia o que se passava. Histeria coletiva. Logo, pegando um homem pelos colarinhos, pôde entender. Alguém, durante a noite, ateara fogo no madeiro da cruz. Desesperada, largou o homem e correu, chorando, até ao Cruzeiro. Nem cinzas ficaram. O vento levou, borrando a rua. Maria ficou ali parada. Sua filha não lhe saía da cabeça. Sentia o fracasso se agigantando. Alucinada, culpava-se mais uma vez. Via imagens terríveis em sua mente: pregava sua própria filha, estendida, na cama-cárcere. Retornando, ainda no porto, viu chegar a embarcação. O que dizer, o que fazer, quando chegar diante da filha? Mão delicada pousou em seu ombro. Assustada, olhou para trás e viu uma mulher, senhora. Roupas estranhas. Estrangeira, talvez. Antes mesmo que perguntasse algo, a senhora olhou-a com firmeza, foi até o barco ancorado, trouxe uma lasca, quase imperceptível, e entregou-lhe. Que loucura é essa? pensou. Como lendo seus pensamentos, a inesperada senhora respondeu-lhe: – Você não veio com uma missão para esta localidade? Não pediu sua filha, lasca que fosse, de um pouco do milagre, um pouco da esperança, então? Na primeira distração do olhar de Maria, a súbita senhora se foi. Perguntou às pessoas ao redor, não souberam responder, não restando outra alternativa que tomar a embarcação.

Maria Cândida, em crise de ansiedade, logo gritou num fôlego só ao avistar sua mãe:

– O que trouxe para mim? Trouxe o que eu pedi? Como era o Cruzeiro?

Maria, a mãe, nada pôde falar. Garganta apertada. Abriu a mão e entregou a lasca de madeira à filha.

A moça pôs-se a orar, orar, orar... De repente, parou e disparou:

– Então é isso, mamãe? Que ideia luminosa. É a lasca do Cruzeiro milagreiro? Muito, mas muito obrigada, mamãe querida. Eu sabia que podia confiar na senhora. Foi o melhor presente da minha vida – completou com contentamento.

Sua mãe, sem coragem, nada respondeu.

Os dias foram se passando, as preces persistindo. Nada de novo aos olhos da mãe.

Numa manhã, o azul voltou. Maria Cândida pediu para colocar sua cama no portão de sua casa, coisa que nunca fizera. Pediu, ainda, pano branco e linhas coloridas. Começou a bordar. Quem diria, começou a bordar.

Quando Maria, mãe, olhou para a rua, viu aquela senhora do porto chegar sorrindo. Sem que Maria Cândida percebesse qualquer coisa, Maria aproximou-se, ríspida:

– Como pude oferecer tamanha mentira? Fazer minha filha acreditar que essa era a lasca da cruz milagrosa, quando era, sim, a de um barco?

Sem mudar o semblante de alegria, a senhora respondeu:

– A fé, minha boa filha, tem um tanto de sublime, um tanto da simplicidade. A fé é operada pela ignorância na busca do extraordinário, mas extraordinário mesmo é a própria fé, a confiança em algo que a percepção da razão e conhecimento conquistado não conseguem alcançar ou empreender. Quem consegue explicar a fé? Quem pode dizer como a fé opera? Podemos dizer, sim, o que salva é a fé e não o "pau da barca" ou da cruz. Veja como está feliz sua filha. Ela, agora, com sensibilidade, borda seus talentos e sonhos, fixando-os no pano em que antes só tinha o branco do tudo a fazer. A propósito, eu não retirei lasca do barco, como pensa, retirei da cruz que suspendeu meu filho na dor do mundo. Meu filho... – falando baixo, com ternura – que saudades do menininho em meus braços no ar quente das ventas dos animais. Do menino que corria nas elevações perto de casa, falando sozinho. Do menino que ajudava ao pai em seu ofício. Do meu menino inocente, como são todas as outras inocências infantis, que cresceu na pele de presidiário, de perseguido, de confundido, de amado, de aguardado, de o filho Dele, de libertador, que do alto da cruz podia ver a Deus; umedeceu o meu manto materno com soluços de dor, gotas de sangue, desespero, compreensão e amor, o meu menino. Naufragou no mar salgado dos meus olhos, assim como de outras mães que enterraram a seus filhos no mar Morto das injustiças e brutalidade. Ainda, as religiões, ah, as religiões... fizeram-no, meu menino, crucifixo, preso arrastando as contas, como arrastam os condenados os seus grilhões.

Maria, pasma, nada a dizer, ajoelhou-se e chorou.

– Mamãe, por que chora? – perguntou a nova bordadeira.

Ao levantar os olhos, Maria, espantada e emocionada, somente enxergou sua filha. Aproximou-se e perguntou-lhe, sinceramente:

– Filha, você está feliz, mesmo não podendo andar? Será que você devia mesmo se apoiar numa simples lasca de madeira?

– Eu sei, mamãe, que é uma simples lasca, mas cada um precisa de sua "lasca de madeira" para continuar acreditando em algo que vale a pena para viver, para se apoiar, para despertar a fé. Eu sei, eu sei, é verdade, não estou andando, mas consegui algo melhor, consegui bordar...


N. A.: Homenagem àqueles que conquistaram a vontade de viver...