domingo, 29 de maio de 2011

NÃO DÁ PRA ESQUECER


NÃO DÁ PRA ESQUECER Autor: Nilton Bustamante

Não, não dá pra explicar quando sem querer o coração começa a voar. Não, não dá pra entender, nem dizer como é lá no céu, nuvens-planetas, entradas-estradas, portas de estrelas, caminhos que se quer seguir, nunca mais voltar e não mais deixar de sentir essa vontade, essa saudade que virá alegre e triste.

Não, não dá pra explicar quando sem querer o coração começa a voar. Não, não dá pra entender, nem dizer... O meu coração tomado assim de tanto tanto amor fazendo poesias como quem acredita, como quem se excita em noites almofadas ouvindo barulhos e sons que gemem o mesmo nome na janela aberta do quarto jasmim.

Em cada gesto a atenção de ser tudo gosto de Primavera, primeira vez, primeira fala, a busca da delicadeza no jardim mais bonito; receber a abelhinha e seu mel dos mil vôos de mil minutos; noites prateadas azuis o primeiro ronrom, primeiro tesão, primeiro avião-pensamento se molhando nos orvalhos de Sião, meu coração sem mais conseguir, sem mais saber, acreditar se é mesmo verdade, a emoção pelo céu, pelo ar, mil nuvens caminhos em estrelas planetas, o virgem mel desbotando em lágrimas que caem emoção, encontro das notas musicais...

Ouvir a canção, Espanhola, carro de som, presente de aniversário, e ficar na escada e chorar uma vez mais e mais, algo represado, inesperado, falta de ar, chover quente e doce, abrir flores outras cores, tudo então magia, história de amor, nossa história de amor.

Não, não dá pra explicar quando sem querer o coração começa a voar. Era pra ser algo passando como passam as imagens pelas janelas dos automóveis, dos computadores, avião vagalume que se vai ao alto piscando na noite nua... Era pra ser somente um simples olhar... Era pra ser.

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“Espanhola”, interpretada por Rossa Nova:
http://www.youtube.com/watch?v=_M0XSFDxRmM&

quinta-feira, 26 de maio de 2011

NÓS DOIS



NÓS DOIS
   Nilton Bustamante

Quando somos flores
Somos amores
Amores rimam com flores, rimam com cada estação
Quando somos coração
Poesia, oração rimam quando pensamos em nós dois...

Quando penso no amor
Seu nome
Rima junto ao meu, seu sobrenome sobre o meu
Quando somos luz,
Chuva de verão, e a vontade de dançar, cantar
Que o mundo não é nada feio, quando cabe nós dois...

Contrariando quem propôs não ser possível,
Somos mundos em mesmo lugar
Somos mistura, somos ternura,
Somos sementes aladas levadas pelo vento
Que riem da viagem em saber o que levamos entre nós dois...

Que somos flores, somos amores e uma baita vontade de amar mais e mais...

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segunda-feira, 23 de maio de 2011


PRA TE ESQUECER
  Nilton Bustamante

Alguém me disse que era para te esquecer
Pensei em mudar-me de casa, rua, cidade, planeta e pele 
Mas, minha idade vive tudo tão profundamente
Com tanta e tal intensidade que já não sei ficar sem amor
Meu coração não consegue balançar, brincar sozinho...

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sábado, 21 de maio de 2011

LOUVA-A-DEUS NO QUARTO DA MENINA


LOUVA-A-DEUS NO QUARTO DA MENINA
 autor: Nilton Bustamante

Quando as matas eram de seu reino reis e rainhas, o sereno caia leve, caia manso, vinha lindo respeitando os verdes que eram tantos e tantos que não poderiam caber nos melhores sonhos dos pincéis dos homens.

Quando as matas foram escassez e rinhas sem reino, o sereno foi morto, foi seco, veio espanto, sabotando os verdes que foram tantos e tantos que não poderiam caber em nenhum dos pincéis que os homens pudessem um dia criar.

Quando tudo era triste, quando não mais havia sereno, quando tudo era desencanto, quando não mais havia humano jeito uma inesperada lágrima, pesada em molhado sentimento vindo de longe, muito longe, muito além das mil galáxias, pra lá das poeiras silenciosas do Cosmo, despencando de um olho estrela, que não aguentou tanto penar, tanto pesar, tantas desesperanças secas − secas vidas, secos sonhos verdes, secas harmonias em tortas agonias, matas sucumbidas, derrubadas, humilhadas, escravizadas e mortas pelos deuses motosserras −, eis que a sentida lágrima ao cair sobre o solo árido planetário transformou-se em prece, transformou-se em louvor, entrega; em sua metamorfose terrestre  manifestou-se em louva-a-deus. Presente à Humanidade, forma alienígena que viria frequentar matas, campos, periferias e jardins, ensinar que para essas últimas matas não poderia mais envenená-las com pesticidas e afins; que ele, louva-a-deus seria o ensino do equilíbrio biológico, e tanta seria sua serventia e entrega, que daria sua própria cabeça de macho pra demonstrar a seriedade de sua missão: Decapitado e com seu corpo atuando para terminar na fêmea a fecundação, sinalizando que a vida é maior, ensinando que todos precisam fazer seus sacrifícios e rezar, rezar feito louva-a-deus vindo das alturas, uma lágrima despencada, parida de um olho estrela que de tanto horror pelo que viu neste pequenino grão perto de sucumbir em areia, agora, sonha em voltar a ser melhor solo, terra.

Quando a menina viu o louva-a-deus em seu quarto, pensou ela ser a causa a janela aberta; não percebeu que foi de seus olhos a mesma lágrima, a mesma oração.


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Schubert
http://www.youtube.com/watch?v=GkX4MyDeIqI&

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sábado, 14 de maio de 2011

MERGULHOS



MERGULHOS
Nilton Bustamante

Quando à noite fechar meus olhos, submergir, tanto e quanto mais e mais no profundo possível, eu ainda pra me conhecer em meus abismos... 

Quando meus olhos acordarem não quero esquecer, tanto e quanto mais possível nos meus poucos nudismos...

Quanto mais e mais sobre mim, mais o quebra-cabeça vai pegando forma e a figura, a imagem acreditada, está ficando totalmente outra, outra diferente do espelho.

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sexta-feira, 6 de maio de 2011

SCHUBERT, A CIGARRA E A FORMIGA


SCHUBERT, A CIGARRA E A FORMIGA
  autor: Nilton Bustamante

Quando pequeno vez ou outra via pela avenida principal cortejo fúnebre. Longa fila de automóveis. E quanto maior, mais importante parecia ser o recém despedido da vida.

Quando pequeno vez ou outra pensava eu que o cortejo que seria meu, teria que ser o maior que aquela avenida já presenciara. Maior que minha angústia e solidão. Mais que meu ego, queria eu o mais que poderia ser.

Hoje percebo que antes eu precisava ser tantos e tantas, que todos aqueles caminhos, brilhos em meus olhos, eram mais que caminhos, labirintos; aqueles milhões turbilhões ficaram distantes, hoje busco o prumo em direção a Deus, sem fanfarras, sem alardes, sem mil testemunhas, sem fantasias, que minha hora, a partida, tenha por companheira uma prece, a paz e nada mais.

Quando comecei a querer amar entrava pelos olhos que encontrava, queria saber de onde vinham tais enigmáticos fascínios que me hipnotizavam. E o mundo era de tantos olhares, tantos diferentes brilhos que me perdia e não sabia mais voltar.

Quando comecei a querer amar queria apenas a Lua e seus infindáveis furos, voar pelas músicas, adormecer até acordar no colo do ser amado, da tão sonhada namorada.

Hoje percebo que antes eu precisava ser tantos e tantas, que todos os caminhos de todos os olhares eram labirintos; aqueles milhões turbilhões ficaram distantes, hoje busco o sentido que me leva à alma o ser amado, minha mulher,  a tal sonhada namorada.

Quando comecei a escrever com a ponta do coração, queria entrar pelos livros e deixar minhas letras, minhas palavras, caligrafia da alma. Queria eu ser muitos livros, muitas tardes e noites de autógrafos. Mais que meu ego, queria eu o mais que poderia ser.

Hoje percebo, ah, finalmente percebo e rio de mim. Antes de ser mil livros, ser Drummond, ser Vinícius [de Moraes], falar para mil olhos e ouvidos, declamar para mil plateias ateias, faz mais sentido o coração livre e sincero de desconhecida cigarra ouvindo Schubert e declamando despercebida para única e silenciosa formiga.





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More Brendel: Schubert Op. 90/3
 http://www.youtube.com/watch?v=GkX4MyDeIqI&



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quarta-feira, 4 de maio de 2011

QUANDO VEM AQUELE ALGUÉM


Quando vem aquele alguém
      Nilton Bustamante

Sabe quando vem aquele alguém
Por mais que se procurou
Acaba chegando sem esperar                 
Vindo voando pelo céu

Me diz se já te aconteceu
Essa alegria, essa miragem e encontrar
O coração disparando, fugindo
Sabe-se lá pra onde, tanta
A emoção parece sonho, parece filme de TV

Me diz!
Se essa vontade de querer cantar em cima do palco       
Soltar a voz sem se importar
Estar na multidão, fechar os olhos e só ver aquele alguém

Se já te aconteceu?
Se apaixonar, achar tudo lindo
Querer pegar forte em outras mãos
Voar, voar, voar pra nunca mais

Me diz se o que estou sentindo
É mesmo sonho, vontade de amar
Me diz se já te aconteceu
O que estou sentindo
Me diz se aconteceu
agora que te vi chegar aqui...
Eu já não sei o que será de mim
Sumir, sair nos jornais, que fui atrás do meu coração
Voar, voar pra nunca mais
Agora que eu já te encontrei quero te acompanhar

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segunda-feira, 2 de maio de 2011

AOS QUE DIVIDEM E DIMINUEM PESSOAS


AOS QUE DIVIDEM E DIMINUEM PESSOAS
autor: Nilton Bustamante

Ainda que se possa dizer que são simples brincadeiras, corriqueiras e inofensivas observações, que causam graça, há algo mais profundo nisso tudo: preconceito social (ainda que não percebam).

Aos que ignoram, devemos alertar que as expressões e formas linguísticas (escritas ou faladas) não são certas, nem erradas, nem engraçadas - são diferentes umas das outras. José Lemos Monteiro, intelectual versado em linguística, já enunciava em seus trabalhos sobre o preconceito linguístico: “são critérios de ordem social e não de natureza estritamente linguística os que subsistem ao se avaliar uma forma de expressão como errada ou correta. O que se julga erro nada mais é do que uma diferença devida a fatores múltiplos, entre os quais, a região, a classe social do falante e o registro ou situação comunicativa. Seria bem mais lógico que, em vez de se ensinar que as frases (formas de se falar) são corretas ou erradas, se transmitisse a consciência de que a língua não é uniforme nem estática e que, por isso mesmo, admite uma pluralidade de usos. Estes podem ser expressivos ou inexpressivos, elegantes ou grosseiros, comuns ou raros, formais ou informais, adequados ou não aos propósitos comunicativos, sempre diferentes uns dos outros e jamais errados em sua essência.”.

E Trudgill disse além: “... são igualmente bons como sistemas linguísticos, uma vez que são adequados às necessidades de seus falantes. Desse modo, o sentimento de que as formas discrepantes do modo de falar culto são erradas se deve a um grave preconceito social.”

É de se admirar que essas pessoas elitizadas que moram bem, se alimentam bem, se vestem com roupas de qualidade, que frequentam os melhores lugares, que usam os melhores transportes, que tiveram acesso à cultura (educação é outra coisa), que se comprazem com outros iguais ao depreciarem com ironias as pessoas simples, fazendo troça e chacotas daqueles que se expressam atropelando a “Língua culta”, antes mostrassem essa mesma competência para abraçarem a responsabilidade social. Entenderiam que seriam mais úteis à sociedade, à Nação, e consequentemente às “Marias” e aos “Josés”. Quem sabe oferecer escola para quem fala "droba roupa", "apareio de fone", "macarrão de pênis", "rezisto em cartera", etc, ainda que o Estado tem suas obrigações e deveres nesta área.

Rir daquelas pessoas modestas que muitas vezes lhes “servem”, é desvalorizar a figura humana antes de tudo. Não compreendem o vazio de alma que se encontram. A verdadeira e única “Justiça” saberá avaliar a justa dos reais valores. Depois à cada um conforme sua obra.
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EM TEMPO:
E pegando carona no tema “preconceito social”, estamos vendo em nosso país manifestações de repúdio contra nossos irmãos nortistas e nordestinos que, grande parcela, votou em favor da candidata oficial, no primeiro turno, para o cargo de presidente da nação. Os apupos e más vibrações brotaram em muitos corações de nossos irmãos que sentem-se filhos de outras regiões, historicamente mais abastadas. Fazemos um convite para refletirmos juntos, e quem sabe chegaremos à conclusão que os “vilões”, são “vítimas”...

O povo nortista e nordestino são os que ajudaram (e ainda ajudam) e muito a construir essa nação. São trabalhadores por excelência, com alto grau de autoestima, que sobrevivem em condições e locais sub-humanos, e são fervorosos na fé que os mantém na última oportunidade de esperança, como quem se agarra há um fiapo de raiz na beira do precipício...

É muito digno, elevar as condições de vida de gentes sofridas. Se há distorções, se há algo errado pelo meio do caminho, busquemos o burilar de melhores ações, o aperfeiçoamento do sistema, para promover a justiça social, oferecendo, depois que se “matou” a fome, condições de gerar riquezas, empregos, educação etc... Ótimo, que maravilha! Mas, repito, NÃO se deve amaldiçoar e generalizar os “beneficiários” nordestinos, se um ou outro punhado não soube e não sabe a importância dessa ação governamental e se encostam na sombra do tirar proveito da situação. Aos políticos que tiram vantagem eleitoreira, se isso ocorrer de fato, deve-se coloca-los em seus lugares, justamente ao REFORMARMOS os instrumentos apropriados e se exercer pressões nas ações governamentais através do voto popular e outras ações da sociedade organizada. Mas, fomentar o ódio e desclassificar nossos irmãos, que geograficamente já estão apartados de tudo e de todos, isso nunca. O povo brasileiro é trabalhador, nota-se que, na maioria dos lares, todos estão levando a vida da melhor maneira que podem, se organizando às vezes aos pedaços, mas, estão buscando novas manhãs...

É como demonizar as “cotas” para as universidades. Pensemos: os povos trazidos à força do outro lado do oceano, levados à escravidão, temperados no açoite e no escárnio, durante dezenas, dezenas e mais dezenas de anos, foram penalizados simplesmente por existirem nos mesmos dias da cobiça criminosa de seus algozes, e, com o “fim da escravidão” foram largados à própria sorte (?) pelas ruas, formando hordas de mendicância. Os filhos dos filhos dessas gentes, não merecem ser “recompensadas” de alguma forma, por algum tempo, para equilibrar a balança social? Sim, podemos ser contra as “cotas”, pois devemos lutar para haver um processo educacional, de qualidade, dos primeiros passos até às universidades TOTALMENTE LIVRE PARA TODOS! E aqueles mais abastados, certamente, terão instituições particulares, competentes no que fazem, que lhes abrirão as portas...

Mas, insistimos, não devemos desclassificar ainda mais àqueles que sofrem seus “apartheid” particulares, e se dizer que os negros são privilegiados; ou que os judeus são sanguessugas; ou que os nordestinos são parasitas sociais; que os jovens não querem saber de nada, muito menos estudar; ou que o povo brasileiro é atrasado e merece viver na misérias de seus dias... é uma distorção de realidade, se assim compactuarmos com essa forma insana de pensamento. Pois, aquele que possui essa visão de mundo e das pessoas, que desclassifica etnias, grupos sociais, e outros que tais, precisa rever os seus conceitos e saber o que há de errado e endurecido no próprio coração e perguntar a quantas está adoentado e em distúrbio próprio ego. Segmentar, segregar, e não enxergar o valor das pessoas, que ajudaram ao longo da história enriquecer a humanidade com o esforço de seus trabalhos, isso é realmente desumano e sentimento apequenado. Lembrando que os nossos irmãos negros trouxeram valoroso trabalho nas lavouras, mineração, e, na educação de suas sinhazinhas (inclusive, os negros nos dias de hoje, são os melhores atletas não por acaso, pois sofreram no tempo da escravidão, os cruzamentos genéticos, como se fossem gados, para se conseguir “braços mais fortes e sadios” para a labuta, além, é claro, em esforços sobre humano, são cientistas, médicos, advogados, e demais categorias importantes na sociedade). E nossos irmãos judeus trouxeram avanços incríveis em todas as áreas do conhecimento humano ao mundo, além de movimentarem as economias do mundo.

E os irmãos jovens de hoje não podem ser penalizados nem diminuídos pela má formação escolar que lhe outorgam, são vítimas da falta de oportunidades como um todo; e nossos irmãos nordestinos são maravilhosos que sobreviveram e sobrevivem à custa de muito trabalho em condições precárias na maioria das vezes (são os melhores pedreiros, os melhores cozinheiros, as melhores mãos de obra, e muitos intelectuais fantásticos, e por aí vai...), como também os são importantes nossos irmãos de todas as outras regiões do país, pois são importantes não por habitarem essa ou aquela região, ou condição social, mas pelas qualidades do vigor humano que lhe competem à construção de si próprios.

Quando se olha para um todo, devemos nos habituar com a visão do estadista e não do reacionário, pois somente construiremos a nação dos nossos ideais se o convite for para TODOS os filhos da pátria a participarem e dando-lhes condições para tanto. Segmentar é enfraquecer-se. Certamente, haverá muitos que não quererão abraçar as oportunidades, caso existirem, se isolarão por eles mesmos; mas o processo evolutivo de uma nação, de um povo, mesmo aparentemente a passos lentos, deve-se saber que o mais importante é o rumo, é a direção certa!
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domingo, 1 de maio de 2011