quinta-feira, 30 de setembro de 2010

MUNDO NOVO PRA NÓS DOIS

MUNDO NOVO PRA NÓS DOIS
 Nilton Bustamante

E quando não quiser saber
Dos perigos venha pra mim
Me de um abraço pra gente sumir
Querer mundo novo pra nós dois
Correr pelas ruas,
Pular nas calçadas, grudar no pescoço

Coloque a mão em meu bolso
Que eu não deixo você ir só
Quero seu beijo feito louco
Quero curtir seu gosto
Viajar num céu todo azul
Indisfarçável sabor de pecado
Me faz querer fugir
Querer mundo novo pra nós dois
Só pra nós dois, só pra nós dois poder partir

Deixar tudo pra trás e levar o amor
Seu coração junto ao meu falando de nós dois
Deixar tudo pra trás e levar o amor
Meu coração junto ao seu falando de nós dois

Coloque a mão em meu bolso
Que eu não deixo você ir só
Quero seu beijo feito louco
Quero curtir seu gosto
Viajar num céu todo azul
Indisfarçável sabor de pecado
Me faz querer fugir
Querer mundo novo pra nós dois
Só pra nós dois, só pra nós dois poder partir

Deixar tudo pra trás e levar o amor
Seu coração junto ao meu falando de nós dois
Deixar tudo pra trás e levar o amor
Meu coração junto ao seu falando de nós dois

Querer mundo novo só pra nós dois
Só pra nós dois, só pra nós dois poder partir
Querer mundo novo só pra nós dois
Só pra nós dois, só pra nós dois poder partir...

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FOLHA DE PAPEL


FOLHA DE PAPEL
Nilton Bustamante

Correntezas me levam... Não respeitam minha vontade, nem minhas pernas.

Sou levado ao sabor do vento, sem saber a direção que será, sem saber o que virá.

Sou jogado ao céu feito qualquer coisa que voa. Folha de papel, sem dobraduras, sem arquiteturas, antes fosse pequeno avião, coisa de menino, aproveitaria a viagem...

Sou levado, pensamentos me carregam - já não sei se são só meus - entregam-me, delatam conturbada ventura de um coração que acelera e sofre o risco de sair do compasso. Beijo o espaço tão insólito. Mar em suspensão. E eu espero a chuva, a liberdade das gotas que escapam da prisão, espero, espero, espero ao léu a alegria da fuga.

Ah, antes fosse pequenino avião de papel, abrisse as comportas e de cima da ponte jogasse meus desejos, faria a minha própria chuva, liberdade, escaparia da prisão, e pelas águas em fuga ocupando secos rios me encontraria com você.

Correntezas me levam...


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quarta-feira, 29 de setembro de 2010

minúsculos





Scriabin etude op8 no12     http://www.youtube.com/watch?v=AGU6irJMKKc&


minúsculos
 nilton bustamante

sou o seu organismo e você é o meu.

somos o que criamos!

é uma afirmação. convicção.

duas fontes exercendo como dois vulcões erupções e dormências.

entre nossas mentes, entre nossos sentimentos, energias ebulições.

nada fica esquecido. nada perdido. nossos descuidos são acontecimentos. se, acontecimentos, estão ao mundo, estão entre nós, nossa obra. nossa história. nossa ponte, fonte, o que jorramos? jorramos o seco dos desertos ou gota que alimenta alguma esperança? estamos no tempo em que o tempo está em seu limite. conta-gotas. somos conta-gotas um do outro. depositamos de nossas essências um ao outro. e o veneno ou o amor estão transitando em nossos dutos...

somos ainda em minúsculo, minúsculos, somos ainda nada. o que sabemos? o que aprendemos? o que levamos em nosso íntimo? qual é a saúde desse organismo que criamos entre nós dois? natimorto ou há alguma chance de crescer, resplandecer estrelas, primaveras flores, abraços verão, sossegos inverno, morrer outono, para em outro ciclo recomeçar, renascer?...

tenho calma, mas estou com pressa. tenho pressa, já morri demais para não ser dessa vez, num demorado abraço - já que meti a boca e suguei meus venenos e cuspi - pelo menos por agora, pelo menos nesse instante, um tanto do meu incontrolável amor por você.
 
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segunda-feira, 27 de setembro de 2010

É ASSIM...


É ASSIM...
 Nilton Bustamante

deito no sofá, danço Astaire
caio no tapete, vôo Exupéry
fecho os meus olhos, seja a que horas for, a noite vem
e você em meu peito me arranha, machuca... peço mais, peço bis.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

MARTRONAUTA


MARTRONAUTA

Nilton Bustamante

Esse mar, é mesmo céu,
esse descer flutuar e ficar ao léu
jogada, solta em nuvens de água
carregadas de paz...

Esse mar placenta de sua alma,
faz de ti, menina, golfinha
com uma vontade que não cabe
em coração humano...

Uma vontade de voar sem asas
sem pisar, sem sentir peso algum
nem mais o desprezo de palavras vãs...

A vontade de ser discreta,
guardar segredos
sentimentos, arca de piratas,
Em todas as ilhas que o sol e mar vão se encontrar
E o vento em seus pêlos despertando pensamentos
E o seu nu, de mulher...

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terça-feira, 21 de setembro de 2010

ESSE DIZER NÃO DIZER

A Casa do Lago
http://www.youtube.com/watch?v=NTPkAQIQ42M

ESSE DIZER NÃO DIZER
  Nilton Bustamante

Esse dizer não dizer
Essas pequenas coisas deixadas que dizem tanto, tanto...
Um clip de um filme que diz só pra nós dois
Uma música, um simples desenho, uma frase, uma palavra...

Esse dizer não dizer
Porta carta vazia às vezes, outras... tanta, tanta emoção
Acompanhar seu trajeto sem você me ver
Olhar pela janela, pensar que o sonho é o real, até normal

E eu corro, corro, corro tanto pra ver se algo seu chegou
Ajoelhado, choro a emoção de sua falta,
Tento fazer meu coração falar o que minha razão quis,
Mas, meu coração não é boneco de ventríloquo, ele fala por si:

Enquanto minha boca fala distância, meu coração diz que não vive mais sem você

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domingo, 19 de setembro de 2010

NÃO FAÇO SONETO



NÃO FAÇO SONETO 
autor: Nilton Bustamante

Não faço soneto, porque soneto é para poetas que sabem das palavras os seus segredos. 

Não faço mais nenhuma poesia porque tenho medo de morrer, como quem morre de amor, sem remédio que lhe faça causa, que lhe faça cura.

Um traço da minha fé que ainda perdura tenta em algumas linhas minha última chance, ainda escrever madrugadas, ainda os sonhos, nas magias das noites o que o dia não pode ser. Mas, confesso, um medo, um terrível receio, um pavor, um torpor vem detrás dos sonhos que correm o risco de ficar ao longe, cada vez mais longe, o risco de deixar de existir...

Tenho medo, de escrever sobre o amor, sobre minha amada, porque de tudo – diz ela – apaga; porque de tudo – diz ela – guarda.

Queria eu que houvesse menos cuidado em apagar, menos cuidado em guardar, e deixasse livre o encanto que fizeram homens e mulheres de todas as épocas se perderem – e viverem – o amor.

Ah, o amor, algo tão suave, tão sublime e pesado; ah, o amor, algo tão delicado, tão grande, dualidade do encanto e do fardo...

Ah, esse gostar pela mulher amada é tão universal sentimento, descomunal, com vida própria que se esvai de dentro da chama e não se sabe pra onde; esse gostar, esse sentimento tão mal explicado, nada há que possa guardá-lo, acomodá-lo, nada, nada... Como explicar, como explicar?

Ah, essa feminina voz delicada do amor dentro de mim é prece; essa energia é bruma qualquer forma que os desejos ensejam para melhor falar dos enamorados e de suas luas. É delicado vício, é sua rósea flor sem grinaldas que se faz doce, se faz mel, feminina mulher que pede, obedece e se desfaz sem fôlego e dor...

Onde as estrelas que não ouvem meus pedidos?

Onde as cartas que guardam o instante da flor mumificada, no eternizado distante que fica sempre logo ali, a um estender de dedos, a um piscar de olhos, distração qualquer?

Não faço sonetos, não faço mais versos, errados ou certos, porque a cada dia que fica o longe do abraço, de cada beijo o deserto,
são palavras-universos que me deixam, morrem tristes dentro de mim. Tenho medo sim, tenho medo, um pavor que os meus melhores versos feitos para minha amada deixem de existir... Insisto, repito, cada palavra menos dentro de mim é menos um pulsar do meu coração a dar, e, em sobressalto fico, pois será o mesmo que me faltar os dias que haveriam de chegar.

Eu, longe de minha mulher amada sou aventura errante, é ficar distante da namorada minha que vê estrelas pela janela, que dorme sonhos sobre perfumado travesseiro; eu longe de minha mulher amada tudo se torna vazão rasgada e discreta, é antes em mim sofrida e terrível sangria. Melhor seria, menina minha, dormir serena, mãos dadas, e não se preocupar em adormecer, em não se preocupar em se entregar, pois, nesse instante, a última chama já valeria todas as viagens, valeria todo sangue de todas as virgens; valeria todas as despedidas, todos os encontros a sós, as idas ao mercado para comprar um gosto qualquer para trazer à boca, e responder a um carinho, a um sorriso seus, com outros mais beijos de amor...

Ah, se conseguisse eu abrir o tempo ruim, talvez brilhasse tímido raio de esperança, quem sabe minha vida se prolongasse, e uma maior vontade acontecesse de mastigar beijos, seios e sonhos, uma maior vontade de sugar completamente os segundos e acabar de vez com o tempo... Gostaria eu viajar mais entre janelas e estrelas que com meu amor foram muitas, foram tantas.

Não faço soneto, porque soneto é para poetas que sabem das palavras os seus segredos...

Se um dia, minha amada, não mais receber sílaba alguma minha,
não será esquecimento, nem desaforo, nem sinal que sofri.
Se um dia, minha amada, não mais receber sílaba alguma minha,
não foi porque não faço soneto, nem porque perdi sua foto,
nem porque deixei de amar... Foi porque meu coração não mais aguentou, foi porque morri.


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Alberto Nepomuceno - Suíte Antiga - Ária 
(1864 - 1920, um dos maiores compositores brasileiros, pianista, regente)
http://www.youtube.com/watch?v=UeAfKwIUocw








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Song from a secret gardenhttp://www.youtube.com/watch?v=UcXXpssBFVM&


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RETORNO




RETORNO
 Nilton Bustamante

Retornei após muitos e muitos anos ao cenário da minha infância...

De repente vi-me olhando, reparando nos detalhes das ruas, das casas e nas fisionomias das pessoas. Procurava alguma coisa que fosse familiar.
Eu já tinha passado por estes lugares milhares de vezes descalço, com chinelos, com tênis, com sapatos e motorizado; brincando, estudando, namorando, trabalhando...
Muitas épocas...

Tudo, porém, estava mudado.

Buscava algo que ligasse o hoje com os outros tempos.

Mas não adiantava, tudo estava diferente, o tempo passou: não havia mais o cinema do bairro, no qual o meu pai fôra ainda menino assistir os seriados nas matinês; o campinho de terra pisada por pés serelepes, verdadeira arena quando da disputa de flâmulas; o barbeiro que contava as notícias da semana, um verdadeiro agente do SNI; Dna. Maria peluda; o bandolim de uma corda só e vocais à base de cebola; a bailarina do Municipal; “seu” Abraão que fazia sapatos, de quem comprei meu primeiro par de chuteiras para o qual servi euforicamente como cobaia; o peixeiro feirante, pai do Vadinho, que nos fornecia temporariamente caixotes para nossas cabanas; o “Fifi”, o primeiro homossexual declarado; a “maloca”, um cortiço dos primeiros excluídos; dna. Carmem que aplicava injeções; “seu” Camilo, de camiseta e com sua cadeira na calçada vendo o tempo passar; “seu” Cruz, o eletricista com cara de cientista; a criação de pombos-correio, do Frederico; a platéia particular para assistir admirada a primeira televisão da rua; a COAP, uma venda bem sortida de alimentos de primeiras necessidades (e que necessidade) onde os bacalhaus levavam calados seus beliscões, os litros de vidro com leite no qual, sob o selo metalizado, dois dedos de farta gordura “sufocavam” o gargalo, o óleo de cozinha tirado do tambor pela bomba manual, os doces variados que nos chamavam todos os dias, e os donos do estabelecimento, “seu” Daniel e Dona Maria, sempre tão gentis e compreensivos com as cadernetas controladoras das despesas dos fregueses que, em boa parte, eram “pontuais” no atraso dos pagamentos; as fogueiras das festas juninas onde as mulheres traziam a pipoca, o pinhão, o quentão, o vinho quente e os homens alimentando as chamas dançantes que assavam as batatas-doces para a alegria das crianças que jogavam no fogo a planta “peido de velha” que estourava como rajada de metralhadora do filme “Combate”; a vacaria com suas cabeças de gado em disparada pelas ruas no “salve-se quem puder” dando um clima de interior à grande cidade; as “escuderias” dos jovens felizes em frenéticas gincanas com vontade intensa de viver; “seu” Aranha, que sofria a doença transmitida pelo bicho-barbeiro; o homem com olho de vidro; o rapaz que achava que era um cavalo e portava-se como tal, com crina e rabo; o homem com a pena verde traspassada no nariz; as colegiais com meias três-quartos e saias com barras que subiam e desciam; as filas dos alunos cantando hinos antes de adentrarem as salas de aula; as ruas sem asfalto que forneciam matéria-prima para nossas obras de barro; as chuvas que transbordavam as calçadas para levar nossos barquinhos (palitos de sorvete); as ladeiras que serviam de pistas para nossas pranchas de madeira “envenenadas” com sebo e parafina; o “seu” Vicente que furava as bolas que caíam em seu quintal; os alagoanos que todos os sábados tocavam a sanfona e o triângulo em cantigas incompreensíveis; o “Ismaé” com sua charanga a manivela; o homem negro de mais de cem anos que vendia “minduim” sempre rodeado pelas crianças, vindo de lá da Rua Dobrada; as passistas da Escola de Samba Peruche com as armações metálicas à mostra indo para a glória particular; a carroça antiga vendendo bucho e fígado; o peixeiro ambulante, maluco, que dançava com os fregueses em plena rua; o homem do quebra-queixo; a batida seca da matraca anunciando o biju; o alto do “morrão” onde enxergávamos os ocupantes dos teco-tecos pousando no Campo de Marte; as árvores frutíferas generosas diferentemente dos seus donos; a chácara dos padres em cujas paredes havia inscrições em latim; as tardes infindáveis em que ficávamos deitados no quintal olhando para o céu, acompanhando os movimentos e formas das nuvens. Oh! meu Deus, onde estará o Luizão, ex-campeão sul-americano de boxe que, no auge da carreira, era um orgulho muito grande e que após uma luta desastrosa na Argentina ficou com problemas mentais, porém pacífico e infantil andando pelas ruas somente de calças mesmo em dias de frio de zero grau, sorrindo e esquivando-se com coreografia de pugilista das provocações dos amigos? Dona Elvira, alemã, de grande coração, que numa noite de natal correu atrás de mim, criança rebelde, de maneira fantástica para que eu me juntasse à sua família, e sua filha Elizabete que derrubava tudo pela frente ao ouvir o ronco das motocicletas dos galãs semideuses da época? Dona Aida tocando violino? Dona Augusta que lavava seus cabelos com cerveja? O Roberto, neto da Dona Nota, que era maníaco por revistas sobre Drácula a ponto de, apavorado, sentir-se sendo estrangulado? O Atilinho, muito inteligente, que foi criado e preservado para ser um gênio bem sucedido, tenho cá minhas dúvidas do que foi feito de sua infância? O Juan, filho de pai nordestino e mãe boliviana, que levava surras de cabides principalmente na cabeça? Dona Tosca que criava tartarugas e, salvo engano, em cuja casa foi a primeira vez que assisti a um funeral onde já havia livro de presença e urna para “contribuir” com a família? Dona Filomena com cigarro no canto dos lábios consertando caminhões, que um dia, raivosa, jogou o pistom em cima do telhado, pois nem seu amor de mãe agüentou o seu filho Zé “aprender” a tocar o instrumento musical com tanto entusiasmo bem ao seu lado, e noutra ocasião com um pedaço de madeira na mão correu atrás de um time inteiro de futebol que ameaçava o juiz (seu marido Oreste), e como era bonita sua filha Teresa com os olhos pintados como Cleópatra provocando suspiros solitários dos adultos ao passar? Zé Gandaia feliz e sua inseparável carroça? O “Bolão” e seu saxofone, integrante da orquestra da TV Tupi? Os bailes da vassoura na casa da Dona Wanda, onde sempre se destacavam o Salomão e a Divani para delírio geral? Nossos campeões de motociclismo Tucano e Casarini? A escuderia Esmeril com a Madrinha Dona Marta? O Eder Jofre, o maior pugilista brasileiro de todos os tempos? O Ademar Ferreira da Silva, nosso "canguru", medalha de ouro em duas Olimpíadas na prova do salto triplo? A fanfarra maravilhosa do Colégio Bernardino de Campos? Os campos de futebol varzeano, para assistir, com as mãos cheias de tremoços, o amor à camisa dos futebolistas heróis de fim de semana? Os pardais em bandos que passavam apressados pelas manhãs sobre nós e, pela geografia do lugar, notava-se que iam bem longe, em direção das praças da República, Ramos de Azevedo e Sé, parte central da cidade de São Paulo, como se possuíssem a missão de acompanhar os homens que seguiam para trabalhar, buscando o "pão nosso de cada dia", para logo mais, ao final da tarde, retornarem barulhentos, contando uns aos outros os acontecimentos do dia, em direção da Serra da Cantareira, porém com parada obrigatória nas árvores de nossa querida Praça Centenário?

E a minha tia Odete, que à força me deu um banho com bombril para tirar os "excessos infantis?”.

Oh! Casa Verde que te quero toda verde, toda amiga, toda cenário de minha infância.

Esta busca talvez seja uma necessidade de o homem encontrar a própria identidade, a própria raiz. Uma exigência inerente ao ser humano em demarcar seu espaço, onde está impressa toda uma história, sua própria história; onde seu cordão umbilical necessariamente tem que estar ligado, ainda que de longe, caso contrário ele é como um navio sem pátria e sem porto; um ser sem “registro” precário nas emoções.

Após muitas fisionomias anônimas achando que minha busca estaria frustrada, por estas boas coisas que a vida proporciona, surgiu um olhar. Sim, um olhar finalmente conhecido: uma mulher exuberante que, rebuscando rapidamente na minha memória do “ontem”, lembrei que era apenas uma menina-moça que passava pelas mesmas ruas.

Em seu olhar uma nítida impressão de quem não desperdiça um lance, próprio daqueles que lutam pela vida para conquistar a alegria de viver e até, quem sabe, o calor de alguém; fixou-me imponente. Olhou-me de tal maneira que era óbvio que buscasse lembrar-se de algo. Percebi em seu jeito uma energia daqueles que não desistem de sonhar em ser feliz. (Seriam os seus olhares somente espelhos que refletiam a mim mesmo?) Era evidente nessa mulher chamar a atenção das pessoas mesmo sem a intenção. Porém, muito desses olhares masculinos pareceu-me ser de caçadores que não entendem que uma “fera-mulher” não é para se enjaular, mas sim ajudá-la manter-se em liberdade; livre para buscar seus devaneios...

O homem que quer ter o amor de uma mulher assim não deve escravizá-la aos seus caprichos mesquinhos e às suas necessidades mais banais, mas sim libertá-la, fazendo amadurecer a vontade de descobrir, conjuntamente, todas as expressões do amor ou da paixão, que começa antes de tudo com o respeito e a confiança e tratá-la com todos os mimos que uma mulher que sabe ser mulher na essência sempre merece.

Aquele ser que desfilava fazia os homens ao redor desdobrarem-se em admirá-la.

Pude finalmente sentir o gostinho de encontrar, através dela, a prova material de um passado real, o elo que me ligaria às lembranças do colégio, dos amigos, das matinês aos domingos, dos vizinhos, dos acontecimentos de um passado bem próximo, registrados em minha lembrança, eternas lembranças...

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UMA MULHER CHAMADA SOPHIA


UMA MULHER CHAMADA SOPHIA
  Nilton Bustamante

Uma voz contida, inaudível, com medo, pede silêncio.
Corpos rastejam sobre chão úmido e gelado. Neve e mais neve na noite mais escura de todas as noites até então.

Um corpo após outro feito bichos que se escondem de seus predadores, tampam as respirações para o ar quente de suas narinas não os denunciem. Homens, mulheres agarradas às suas crianças com os corações assustados, batendo acelerados, pensando, rezando, implorando, enlouquecidas, num transe que não sabiam mais se era realidade ou pesadelo, um sonho sem graça que a vida estava querendo impor com inaceitável negro humor...

O perigo no ar.

Soldados com sede de sangue por todo o lugar.

Famílias inteiras fogem. Novos e velhos. Uns querendo ficar, já sem forças, querendo encontrar logo a morte. Para que tudo seja breve. Filhos, netos, pais, avôs e avós, não podiam nem chorar, nem se despedir. Toda perseguição, todo extermínio, toda guerra sempre tudo muito cruel.

Todas as guerras são cruéis.

Por mais que tentem explicar, não há como entender como a Humanidade ainda aceita tamanha desarmonia e confronto contra a inteligência, razão e sentimentos minimamente humanizados. Como poder ir à guerra, matando a própria mãe, o próprio pai, o próprio irmão, a própria irmã, a própria mulher, o próprio marido, o próprio filho, a própria filha, os vizinhos, os amigos, os desconhecidos de uma mesma espécie?

A cada bala que mata, a cada faca que mata, a cada bomba que mata, mata cada dia, cada tarde, cada manhã que foram de amor, em relativa paz. Como pode assim matar todos os pais, todas as mães, todos os pássaros, todos os cães? Mais que matar a vida, mata-se a dignidade humana!

Esse grupo de pessoas fugia da Rússia que se ensanguentava em perseguição infindável. Judeus que eram, iam na busca de salvarem a própria pele, tinham a Alemanha como refúgio, como destino.

Ainda era antes de eclodir a Segunda Guerra Mundial.

Conseguiram subornar um funcionário da estação de trem, vagões de carga carregavam animais vivos. E lá se misturara essa gente semi-morta. Teria que passar por tantas cidades, estações, fronteiras...

O que poderia acontecer?

A sujeira, a lama extremamente molhada, gelada, o nervosismo dos animais não deixam ninguém se acomodar direito, nem um momento de descanso, de paz. Mas, assim, que o trem começa a se movimentar pode-se sentir o alívio pelo ar dos homens-bichos. Aumentava a chance de se afastarem do ameaçador matadouro. Uma pessoa desse grupo, uma jovem mulher nos últimos momentos de gravidez, carrega sua barriga endurecida de medo, fome e frio.

Pensa no sofrimento do filho que ainda nem nasceu e já sofre os medos do mundo. A adrenalina toda da fuga, o esforço físico, faz-se precipitar o rompimento da bolsa e a água vai abaixo, mostrando que era chegado o momento tão esperado – a vida veio da água –, mas, não podia imaginar que seria assim, dessa maneira, tão duro e desumano.

A jovem em pé,  com as mãos amarradas no teto do vagão para se equilibrar, pois não tinha espaço nem pra deitar-se, mordia os lábios, as dores rasgando-a em duas, pelo meio, já nem mais sentia o chacoalhar do vagão, já nem mais percebia o estado crítico da situação, nem o incômodo das fezes e estrumes, somente queria com todas as suas forças e concentração expulsar o rebento da prisão, da toca, para poder ter a chance de fugir, sumir, uma chance à vida, a vida do filho tão esperado e já amado... E a criança procurou não dar trabalho, parece que sabia de tudo, ajudou, caiu lentamente nas mãos em conchas do pai que o aguardava como uma benção que cai do céu.

Tiras do vestido da jovem mãe faziam as vezes de toalhas e panos. Pai e mãe juntavam o bebê entre eles para o aquecerem. E eram quilômetros e quilômetros de fome, frio e medo. Nas paradas, metiam pedaços de tecidos molhados de saliva e colocavam na boca da criança para não fazer barulho, para ninguém ouvir lá de fora, para não serem encontrados e mortos.

Semanas e semanas, andando depois pelos lugares que não tinham estradas, pelos bosques, sempre à noite, dormindo quando nos melhores dias, debaixo de pontes, e das cinco batatas do dia que fugiram da Rússia, quando chegaram à Alemanha, ainda tinham meia batata chupada ao máximo da exaustão, cansaço. Nem acreditam, mas conseguiram chegar ao destino.

A primeira cidadela alemã os recebeu sem muitos problemas.

Seguiram pelo mapa de seus corações e acabaram encontrando um parente, também judeu que lhes informou que o clima já não era mais tão amistoso naquela Alemanha, havia mudanças acontecendo, havia expectativa desagradável no ar, com Hitler que acabara de assumir o poder...

E logo mais, antes que o castigo de uma época lançasse a grande guerra, a jovem mãe, filho e marido conseguem fugir. E as novas perseguições começam. As mesmas histórias conhecidas agora por outras línguas.

Dois irmãos da jovem mulher são mortos.

A sofrida família, sempre unida, consegue fugir da Alemanha Nazista e vêm para o Brasil. Faz dessa nova terra, uma terra abençoada por seu coração agradecido. Vai trabalhar em uma fábrica em São Paulo, sem saber falar uma única palavra em português. Com muita luta, muito esforço, muito trabalho, conseguem comprar um terreno a prazo e pequena casa é levantada. Seu marido ao passar do tempo, morre. Mas, antes de morrer, dá uma ordem à mulher que se case com o irmão dele, para que consigam criar e educar o filho que já era um menino. Ela obedece e cria seu filho e tem outros mais com seu novo marido. Sobrevivência em terras estrangeiras.

O amor? Isso o tempo ensina...

Essa mulher, chamada Sophia, minha vizinha, que mal falava o português, que veio da Sibéria, era de um coração do tamanho de dois países: Rússia e Brasil.

Ela que nunca mais voltou – e nem queria – à terra natal, dizia:

– Minha terra? Ah, minha terra é o Brasil. Aqui quero morrer em paz!




• Dona Sophia, após contar toda a sua odisseia para mim, morreu alguns dias depois, no mesmo mês, logo após seu aniversário.



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La lista de Schindler
https://www.youtube.com/watch?v=t6E9hETZVSE





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quarta-feira, 15 de setembro de 2010

MÚSICA NO AR

my love: http://www.youtube.com/watch?v=MKiKit9ycFI&



MÚSICA NO AR
Nilton Bustamante

Quando não mais esperava música no ar
Em vez dos corriqueiros ventos e brisas
Quando não mais esperava me ver voar
Nos céus feito pássaro sentido que voa, voa, voa
Ao sabor das espirais que me jogam nas alturas
Faz-me esquecer de descer, de colocar meus pés em terra, no endurecido chão...

Quando não mais, não mais eu
Chega aqui uma saudade, chega aqui um pouco de você
Meu coração delata, abre a boca, abre o bico, entrega o jogo, faz comigo acordo,
Tudo para ter um pouco mais, um pouco mais do amor, um pouco mais tudo de você...

domingo, 12 de setembro de 2010

O QUE ME RESTA?



O QUE ME RESTA?
   Nilton Bustamante

O que me resta nesta noite que se vai longa, que se vai longe e não se entrega?
O que me resta nesta folha que cai da árvore pra beijar a rua e ser levada pelo vento, pelo prazer do momento de se evadir madrugada adentro, sem olhar pra trás...

O que me resta, o que me resta?

Esse labirinto que já sei de cor, que já o fiz por todo jeito, todos os lados, mãos e contra-mãos; que de tanto buscar a saída, de tanto se acostumar nesse fixo pensamento, já cheguei a ver a luz do sol, já cheguei a ouvir o barulho das ondas livres do mar, cheguei a ver a porta e a calçada, e de tanto ficar nesse vai-e-vem, retornei, fiquei, e fico na longa entrega da procura desse dia, dessa noite, que serei folha caindo levado pelo vento, pelo prazer do momento de se evadir, sem olhar pra trás...

Ah, esse meu jeito morcego que emite meus pensamentos na espera de qual será a resposta que virá em seguida, essa admiração pelo céu que me engole, me consome e me sinto mais inteiro... com maior vontade de voar às cegas. Essa fidelidade à poética, esse fascínio pela letra, minha mulher amada, minha namorada.

Ah, esses sons, essa sonoridade da vida e da morte, encontro e despedida, do abraço irradiando coragem como quem segura pequeno arbusto na beira do abismo e não se faz conta ao abrir os braços e encostar corações, neste ato mais importante que a própria segurança, mais importante que os atos ensaiados, esse repouso depois que o fogo a tudo queimou.

O que me resta, o que me resta?

Se meu lado rústico ainda está tentando se entender com a ternura, se ainda estou aprendendo seus contornos, suas formas, intimidade, feito quem no primeiro encontro fica tão extasiado ao entender que a viagem é outra, a pulsação loucamente descompassada, rasgando o peito a vontade de chorar ao toque leve das mãos; saber que a entrega é outra, é deitar na areia da praia, ficar no silêncio olhando pra cima, vendo estrelas mesmo na chuva... E nessa suavidade, nesse mesmo silêncio as mãos em mímicas imperceptíveis conduzem o alçar dos vôos e pousos. Ah, o homem conseguiu ir à Lua, mas é tão precisado das mãos da ternura para se aventurar em solo profundo feito kamikaze, no último suspiro de vida e sorte...

Essa memória, essa história, que faz de mim simples folha, um andarilho levado pelo vento, na busca do amor, pelas ruas onde as pessoas-automóveis passam, passam, passam e não se dão conta...

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sábado, 11 de setembro de 2010

WHY?

WHY?
Nilton Bustamante

PRECISO ESCREVER COM LETRAS GRANDES, GARRAFAIS, ANORMAIS, PRECISO LER O QUE OS MEUS OLHOS NÃO ESTÃO ACOSTUMADOS, NÃO ESTÃO QUERENDO A MAIOR PARTE DO TEMPO VER...

PRECISO SOLTAR UMA LÁGRIMA DE VERDADE, MAS, ONDE?

ONDE, ESSA VERDADE, ONDE ESSA VONTADE, ONDE ESSA CORAGEM DE ABRIR MEUS BRAÇOS E ABRAÇAR O QUE NÃO ALCANÇO?...

OH, TEMPOS DOS TEMPOS, DIGA-ME, MOSTRA-ME!!!

PULO NA PISCINA, E UMA MULTIDÃO SE ALVOROÇA. TODOS CORREM ATÔNITOS, SE APROXIMAM PARA VER DE PERTO MINHA AMBIÇÃO QUE NÃO CONSEGUE SEGURAR O TUBARÃO VORAZ; POR UM MOMENTO PENSEI QUE SERIA CAPAZ, CHEGUEI A TENTAR, SABENDO QUE NÃO TERIA VOLTA, QUE NÃO PODERIA EM MIM TER REVOLTA, E AS MORDIDAS PELA BOCA CERTA DA LEI VAI-ME FAZENDO AOS PEDAÇOS; A CADA INVESTIDA DO SEM PIEDADE VAI UMA PARTE DE MIM... LOGO MAIS VEJO-ME BOIANDO, PRA DEPOIS INDO AO FUNDO O QUE SOBROU DE MIM... E EU VENDO TUDO AQUILO, JÁ SEPARADO, JÁ SENDO METADE, PERGUNTO: - "WHY"? AO ANCIÃO AO MEU LADO, QUE SERENAMENTE ME VÊ E NÃO DIZ NADA... EU JÁ SABIA A RESPOSTA E PERGUNTAVA, QUERIA SABER POR QUÊ? SOMENTE PRA FAZER-ME DE VÍTIMA; SIM, VÍTIMA... MAS MEU ALGOZ, AH, O MEU ALGOZ TEM A MINHA APARÊNCIA, TEM A MINHA CONSISTÊNCIA, SEREI SEMPRE EU MEU CARRASCO, OU LIBERTADOR.

MEU DEUS, MEU PAI, DIVINA ENERGIA, QUE NEM MESMO EM MIL VIDAS TALVEZ EU  POSSA ENTENDER, CONCEBER, GESTAR A IDÉIA DO QUE NÃO POSSO COMPARAR, QUEM NÃO HÁ PAR PARA O CONTRASTAR, NEM A DUALIDADE PARA DIMENSIONAR, PARA EU SEGUIR O CAMINHO E O PRUMO.

TENHO MINHAS MÃOS DE SANGUE, TENHO EM MINHA LÍNGUA MILHÕES DE FORMIGAS DE PALAVRAS ENVENENADAS, TENHO EM MINHAS NOITES E DIAS O QUE NÃO POSSO ESCONDER, TENHO EM MIM O QUE SOU...

O QUE JÁ JUREI EM OUTRAS ESTAÇÕES, EM OUTRAS EMOÇÕES, EM OUTRAS VIDAS ONDE DISSE, AFIRMEI, REGISTREI QUE NUNCA MAIS SERIA, QUE NUNCA MAIS FARIA, QUE EM MEU PEITO SÓ SEMEARIA O QUE FOSSE AMOR... LIVRE DE PRISÕES, LIVRE DE ARMADILHAS, LIVRE DE PERDIÇÕES... ONDE, ESSA VERDADE, ONDE ESSA VONTADE, ONDE ESSA CORAGEM DE ABRIR MEUS BRAÇOS E ABRAÇAR O QUE NÃO ALCANÇO?...

SENHOR, SUBO NO PRIMEIRO MONTE, PEDRAS CINZAS, E GRITO SEU NOME! OUÇA-ME, SENHOR, OUÇA-ME! NÃO QUERO PASSAR PARA OUTRA SEM ME LIBERTAR DE MIM MESMO, SEM CONSEGUIR O SOSSEGO DE TER MINIMAMENTE CONSEGUIDO SERVIR AO MUNDO, À MÃO QUE NÃO POSSUI FORÇAS PARA PEDIR, À BOCA QUE NÃO SABE ORAR, AO CORAÇÃO QUE EMPEDROU E MORREU ESTÁTUA...

OH, SENHOR, EU LHE PEÇO, VISITA-ME EM MEUS SONHOS, LIBERTA-ME DOS MEUS HORRORES, DEIXE-ME VER SEU ROSTO, TOCAR EM SUA TÚNICA, PEGAR NA SUA MÃO FEITO CRIANÇA; QUERO SENTIR A CONFIANÇA E SEGURANÇA DA SUA BENDITA FIGURA ADULTA, A CORAGEM E O CARINHO SEREM MINHAS ASAS... OH, SENHOR!

- "WHY", AINDA ME PERDÔO E ME PERCO NOS MESMOS PECADOS?

- "WHY", AINDA PULO NA PISCINA COM TUBARÃO FAMINTO, PENSANDO SER EU CAPAZ DE PEGÁ-LO, DOMINÁ-LO COM AS PRÓPRIAS MÃOS?

SENHOR, LEVA-ME PARA OUVI-LO EM SERMÃOS DE LUZ!

SENHOR QUANDO PEÇO PARA LEVAR-ME PARA ANDAR PELOS MONTES E MONTANHAS; ATRAVESSAR DESERTOS; EXPULSAR OS LARÁPIOS, LADRÕES, QUE COMERCIALIZAM NA CASA DO SENHOR, QUERO NO FUNDO DIZER, QUERO PEDIR PARA LEVAR-ME PARA ANDAR PELOS MONTES E MONTANHAS; ATRAVESSAR DESERTOS; EXPULSAR OS LARÁPIOS, LADRÕES, QUE COMERCIALIZAM NA CASA DO SENHOR, QUE É MINHA ALMA. QUE FAZ PESAR-ME À CONSCIÊNCIA, QUE FAZ-ME ANDAR TORTO NOS MESMOS VÍCIOS E ENGANOS!

SENHOR, OH, SENHOR, FAÇA QUE OS TEMPOS DOS TEMPOS NÃO ME SEJAM EM VÃO, MOSTRA-ME, OH SENHOR, FAÍSCA, CENTELHA QUE FOR, O SEU AMOR PARA QUE EM MIM A SEMENTE POSSA SER REGENERADA E UM PLANETA APAREÇA, FEITO MAIS UMA ESTRELA, EM VOSSO CÉU...


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Jesus Cristo Superstar:
http://www.youtube.com/watch?v=I3mFBh2z9sc

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segunda-feira, 6 de setembro de 2010

ENTRE COLUNAS



ENTRE COLUNAS
  Nilton Bustamante.’.

Quando o livre pensador fica Entre Colunas, ele não está mais na Liberdade, Barra Funda, São Paulo, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Londres, Paris, ou qualquer outro lugar de endereço e CEP.

Quando o livre pensador fica Entre Colunas, antes de ser qualquer graduação, sempre será trabalhador, será operário, será aprendiz... E as ferramentas serão especiais: apaziguamento, união, força, transmutação, estado alterado da mente, concentração. O que parece retroagir, é avançar, é especial fluição... O que parece retroagir, é transposição, é espelhar-se, sentir-se pedreiro de castelos e catedrais. Tudo é um só momento. Operativo e simbólico, são unos. A pedra bruta trabalhada com empenho, dedicação, serve à obra, perfeição. O espírito desbastado, trabalhado com empenho e dedicação, o que era bruto ficou mais preparado para à Grande Obra, ao Grande Arquiteto do Universo. Preparar-se para melhor servir, é o lema, é a missão!

Quando o livre pensador faz de suas especiais ferramentas concentração, não é retroagir, não é estacionar, é, antes, o preparo da expansão. Pois, “o que está em cima é como o que está embaixo, e o que está embaixo é como o que está em cima”. O mar recua, concentra, pra, logo depois, expandir. O coração recua, concentra, pra, logo depois, expandir, os pulmões faz da mesma dança os seus passos... “o ritmo é a compensação”.

Quando o livre pensador está Entre Colunas, os sons de suas ferramentas são melodias do silêncio, felicidade do trabalho árduo, entre irmãos, vendo a oficina concentrar-se e expandir-se, o mesmo pulsar do Universo, o mesmo pulsar das mentes e corações livres e de bons costumes...

.'.

domingo, 5 de setembro de 2010

HOMEM TARTARUGA


HOMEM TARTARUGA
         
Nilton Bustamante

Antes eu não tivesse cascos que me guardassem tanto.

Antes eu soubesse nadar sem medo, me lançaria nesse céu que é verso, que é espelho o mar.

Talvez me afogasse, talvez seria presa fácil... Talvez seria coro ao murmúrio das águas, talvez seria o que sempre quis mas não acreditei.

Talvez fosse eu, único homem, fones de ouvidos, ouvindo músicas de amor, seguindo de poesia em poesia, feito tartaruga no mar seguindo de estrela em estrela, pra te encontrar...
 
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sábado, 4 de setembro de 2010

DIZ PRA MIM SE EU SONHEI

DIZ PRA MIM SE EU SONHEI
       Nilton Bustamante

Diz pra mim se eu sonhei...
Andei sentindo seu perfume
Uma vontade de amar
Algo que me traz saudades antes mesmo de acontecer

Se foi somente aventura
Uma vontade de voar
Agora não sei dizer, parece mesmo mistério a distância



Fazendo nossa história,
A montanha altar
Nosso encontro, o casamento com a liberdade do sol e do ar



Diz pra mim se eu sonhei...


Você e eu choramos
Em seu portão carro de som
Tocando nossa canção, a gente se chamando de meu amor...



Pitangas apanhadas no pé
Pra não mais me esquecer
Que meus pensamentos são todos os momentos pra você

Andei sentindo seu perfume
Uma vontade de amar

Diz pra mim se eu sonhei...





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SUA IMENSIDÃO


SUA IMENSIDÃO
    Nilton Bustamante

Foi um tanto de estrelas que brilharam
Um tanto de paz, um tanto de amor
Pedaço de sol atrás de seus olhos
Seja como for, como falar desse sentido
Algo da emoção que se faz navegar
Em sonhos de homem e menino?

Universo tão grande, imensidão sem solidão
Caminhar para sair do lugar
Caminhar para poder se perder
Acordar suave pela manhã e estender a mão
Tocando leve sentindo sua pele,
E seu sorriso em forma de oração

Fazendo a alma desejar tanto nesse silêncio
Sua flor se abrindo em minha mão
Ceder a entrega olhos fechados
Achados da nossa alegria nas noites de verão
A coragem de olhar as estrelas
Deixar o coração livre para amar

Pra nada mais ser triste
Pra nada mais ser em vão
Foi um tanto de estrelas que brilharam
Um tanto de paz, um tanto de amor

Almas dadas, escuro dos olhos fechados, imensidão de nós dois...

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quinta-feira, 2 de setembro de 2010

LAGOA SANTA



LAGOA SANTA
autor: Nilton Bustamante

Lagoa Santa, pedacinho do céu, traz a paz do azul para quem vai, para quem vem, com a alma tão preocupada, tão ocupada, que nem se detém para si, nem pra ninguém; é que a maior amiga, mãe querida, está no apaziguamento dos tempos, e nunca é fácil, nunca é fácil... não, não é... Querer abraçar tanto, tanto... que pode até machucar. Falar tanto, tanto... que pode até não se entender.

Ah, Lagoa Santa, doe uma boa brisa, suave, que sustente as asinhas de uma menina, que passa por dias pesados! É que essa menina é tão doce, tão doce, que seu coração não aguenta, chora, pois essa demora desses tortos dias é tremenda agonia, que se quer logo dormir e esperar novo dia, e pensar que tudo foi pesadelo, apenas um sonho ruim que se quer esquecer!

Ah, Lagoa Santa, dessas suas águas benditas, que já fizeram tanto por tantos, seja altar e encontro, para essa menina, que de tão doce, merece uma prece, algo que lhe traga conforto, canto melodioso dos céus!... Ah, sim, Lagoa Santa, não se espante, ela está mesmo assim, toda sorriso por fora, correndo, voando, sempre a mil, difícil alcançar, mas preste atenção, veja o quanto está cansado esse feminino coração, sinta o perfume paterno de cachimbo de antigas baforadas que ela leva no peito e nos olhos, esse saudoso encanto! Ah, Lagoa Santa, ela precisa que lhe sequem os choros que deixa pelos cantos, e que ninguém vê, essa menina necessita que lhe deem trégua, bandeira branca da paz!

Ah, Lagoa Santa, se não por mim, que não tenho mérito algum, faça por ela, essa doce menina, que precisa tanto de abraço, de colo, refrigério, e descanso!...

Ah, Lagoa Santa, convide esse anjinho visitar suas margens, molhar os pés, e no espelho d'água, ver renascer o sorriso, aquele outro sorriso que se esqueceu em um canto qualquer da própria alma.

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Schubert Op. 90/3
http://www.youtube.com/watch?v=GkX4MyDeIqI&#aid=P-rbznI5fTs

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quarta-feira, 1 de setembro de 2010

FOTOGRAFIA



FOTOGRAFIA
 Nilton Bustamante

Ah, se ao menos eu não tivesse visto tamanha beleza mostrando-se pela metade, como quem se esconde em um bunker, talvez o sono já me tivesse enganado.
Ah, se ao menos eu não tivesse visto tanto brilho, não despertaria minha imaginação, e já estaria vendo um filme qualquer em meus sonhos.

Ah, mulher, quanto desaforo, deixar-me assim, acordado, esperando, como quem fica na esquina esperando o encontro que não acontece.
A fantasia não é nada menina, é algo que vem, que vem, vem... e judia, judia, judia... e peço mais, peço bis.
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