segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

ALGO QUE NÃO SEI EXPLICAR

ALGO QUE NÃO SEI EXPLICAR
Autor: Nilton Bustamante

Que as horas não me façam me apressar, pois tanto que preciso agora apenas da paz dos quadros-pensamentos se movimentando em filmes que quero assistir, reprisar, deixar-me seguir por algo que não sei explicar...

Pensar que não sou mais eu aqui, apenas feixe de luz, explosão, sentimentos e vontades que se lançam, se projetam pelas negras noites do olhar, que se vão sem rumo, sem ao menos querer voltar, algo que pulsa e se torna paixão dos loucos que deliram pra deixar o mundo mais sentido, mais bonito.

Não é nada que se vai ao longe, nada que não se possa pegar com as mãos e encostar os lábios, morder com vontade a boca em um quarto que se faça nem grande nem pequeno; um canto, um recanto que não seja dentro nem fora; nem acima nem abaixo, mas que se tenha um tanto dos ares dos dias, das noites e das madrugadas que abrigam os segredos ouvidos em baixo tom, apenas pra ninguém precisar saber...

Sim, um canto, um recanto, um quarto que caiba os olhares e os fechares dos olhos; que se transforme em sonhos curtos ou longos, abraçados, separados, dedos entrelaçados, que se ouça os "ais" e os espasmos dos encontros do tamanho do real e do imaginário, que se chore lágrimas sem precisar dizer o motivo, sem que se precise jurar, nem que se ponha a prova verdades ou mentiras, posto que nessa falta de ar não cabe mais nada do que sorrir canto de lábios, insinuar malícias das mais docemente malditas com cara de santo que engoliu as chaves e não vai deixar o sonho partir...

Um canto, um recanto, talvez um quarto desses de gramas e céus, nada mais que um quarto da casa amarela em que as horas não me façam me apressar...


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Alice Fredenham

https://www.youtube.com/watch?v=4KUpKXUSpfM

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

TIJOLOS À VISTA

TIJOLOS À VISTA
Autor: Nilton Bustamante

Subir a escada do que penso ser sonho
Somente para ver o longe, somente para ver o perto
Até onde os olhos conseguem ir
Sentir essa liberdade vigiada que insiste em ser asa
Tablado, pedaço de palco, ser lágrima, sorrir

Minha lógica
são ondas, são os arcos das canções
Que eu canto sem perceber
Disco antigo, túnel do tempo, quando acreditei
Em tudo, até em mim,
Até subir degraus e ver esse longe perto
Perguntar sobre o que minha carne sangraria
Por quem minhas lágrimas vibrariam
Com o risco da invasão vinda de longe, bárbaro invasor

Minha alma tijolos à vista
Minha muralha alta
Somente a escada para quem minha irracionalidade de mulher
No doce das vertigens desejar

É mesmo assim:
Enquanto fico vou longe

Mas, lamento, somente vão me saber nos vestígios, marcas deixadas pelo incomum
Do mundo, pelos descaminhos passos de dança, passos quentes, tortos e frios,
Pra um dia saberem também desses suspiros que vêm com a noite
E insistem em ficar pra salvar a própria alma
Enquanto os olhos fecham-se, abre-se o coração em mil ouvidos
Sentir o que não diz a canção
Outra questão, outra paz, outra tormenta
A letra é de quem escreve sua própria ilusão
E eu gemo a minha

Minha alma tijolos à vista
Minha muralha alta
Me faço aos pedaços
No doce das vertigens me entrego

Sou mulher
Ele, invasor, homem com lira e poesia às mãos



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Anna Netrebko - Donde lieta uscì (Giacomo Puccini - La bohème)

https://www.youtube.com/watch?v=jTNC_M_PzFY

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(foto by Lê)

sábado, 5 de dezembro de 2015

DOCES TROVOADAS

DOCES TROVOADAS
Autor: Nilton Bustamante

Quero escrever, mas a tinta da imaginação não vem, não chega
Estou como quem correu tudo que precisava correr
Tudo que precisou respirar
Tudo de tudo
E se cansou, esgotou-se, sem força pra reagir resolveu olhar o infinito

Hoje aquela volúpia, aquela vontade de luta, cede lugar
Pro simples
Do pensamento medido a palmo, hoje o voo está baixo
Esmoreço vendo homens formigas batendo cabeças
Querendo vencer a qualquer preço, a qualquer custo,
Ganhar o brilho do brilho,
Outros olhares,
Mas de nada valem, nada servem
Se o coração pesar as pedras jogadas
E o beijo não saborear o hálito que a vida traz do amor

Quero escrever, mas a tinta da imaginação não vem, não chega
Antes qualquer opinião, não mais precisa ser aquela de sempre
Não mais precisa estampar o carimbo do tudo aprovado
Hoje é um dia daqueles que a trégua trouxe bandeira branca
Feita de pedaços dos lençóis, fronha e cobertor
Hoje é para se ficar sentado e rir do tempo
Rir da pressa
Rir das brigas, das intrigas, das cronometradas corridas,
Hoje é dia de rir de mim

Sou lixa grossa, nem sei se o que faço consegue deixar recado
Dentro do meu sapato
Pra não esquecer
Que não é pra calçar, não hoje, hoje é dia de andar descalços

Os brindes por aí,
As mesas de bar equilibrando o peso de tanta conversa, tanto papo,
Tapas, beijos, abraços,
Não me são suficientes pra me embriagar,
Não me são, hoje não o riso fácil pra nada, quero respeitar o riso alheio
O sorriso nos lábios que não são os meus
Merece meu minuto de silêncio,
Meu respeito,
Não por pena, não por querer ter igual, nem mesmo estou triste,
Apenas por escolher, por agora, luz
Que chamei por companhia,
Veio porvir nos cantos dos olhos meus
Pra, quem sabe, encontrar universo espaço, pedaço de sonho a mais
Ficar espaçonave dentro de mim

Quero escrever, mas a tinta da imaginação não vem, não chega
Eu me deito e espero que a noite seja, hoje sim, semente que voa
Seguida por meus olhos, seguindo o voo, desviando do sono,
Que a noite seja dia, seja toda doces trovoadas por mim

Valentina Lisitsa - Moonlight Sonata Op.27 No.2 Mov.1,2,3 (Beethoven)




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sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

ALMA DELICADA


ALMA DELICADA
Autor: Nilton Bustamante
Hèlade!
Hélas!
Sou helênico, ou melhor, tornei-me helênico. Pertenço a Hèlade, Grécia antiga.
Exclamo minha saudade, minha dor, exclamo hélas!, dos franceses poetas.
Quem sou eu agora?
Qual partido toma minha maior porção?
Helênica! Helênica!
O diamante é  o  metal invencível usado pelos deuses ao fabricar suas armas.
Perguntei a mim mesmo por algum tempo: 
Qual é arma? 
Para conquistar o quê?
A resposta veio quando você surgiu, 
porta adentro, em minha vida.
Seus traços, seus contornos, são o que há de melhor das origens helênicas.
Do Olimpo, veio a arma feita mulher para conquistar os homens poetas.
Ser diamante na construção, nos objetivos, 
na pureza helênica, eu até posso entender. Mas, como consegue alma tão delicada?
Como condenar os troianos pelo rapto, abismados  pela  rara joia helênica? 
Terei coragem de fazer  o mesmo?
No cavalo moderno puxado pelos cabos de aço, 
no sobe e desce do arranha-céu, nos beijamos mais uma vez. E, não mais que de repente, foi-se.
Onde fica esse tal de Olimpo?
Quando nos amarmos, como será?
Tornar-me-ei um deus mitológico?

Tornar-se-á minha deusa helênica uma mulher de carne e osso repleta de desejos para serem saciados? 
Simplesmente humana?
Qual é o medo?
A metamorfose terá dor? Terá gozo? Toda dor tem um pouco de gozo. Todo gozo tem um pouco de dor. Nada que os moinhos de ventos não possam sanar  
- transe de ilusão e desejos.
Se disserem que seus traços são romanos, não estarão errados... As romanas também usam túnicas. Suas gentes andaram pela Grécia antiga.
Eu avanço meu olhar sobre o poço de desejos. Tento alcançar o melhor ângulo das brancas e delicadas porcelanas; rara beleza.
Beijo sua boca com volúpia merecida, na verdade quero alcançar todos os lábios.
Desça do Olimpo, venha me visitar em sonho. Acorda-me. 
Vamos nos amar.
Seja minha aos poucos, quando puder, 
joia helênica.
Seja minha, alma de deusa.
Seja minha, alma delicada. 

Seja minha, mulher! 


quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

YAACOV PETICOV


YAACOV PETICOV
(Autor: Nilton Bustamante, por desdobramento de alma)
Estava eu, em desdobramento de alma, em um auditório. Havia muita gente. Quem, de certa maneira, comandava por um momento o evento parecia ser o Silvio Santos (Senor Abravanel). Enquanto alguém falava à plateia, fiquei em um canto, próximo, desenhava ilustrações, algo sobre o sentido do que era dito naquele lugar.
Houve um hiato, senti que deveria subir ao palco. Comecei a falar. Senti que precisava dar algum alento para aquelas pessoas. Do pouco que me lembro, meu tema foi para levantar o ânimo de todos ali, percebi que eram de origem semita, falei-lhes, então, sobre a importância do povo judeu para a cultura da humanidade. Discorri sobre a grandeza do violino na cultura judaica e de que sempre houvera pessoas, judias, por detrás de grandes homens da música clássica, tais como Beethoven, Bach, Mozart, Chopin...
Nisso, passou por mim um jovem, sorriso nos lábios, mentalizou-me que havia gostado do que eu havia “falado”. Não sei dizer o porquê, mas alguém soprou-me que o nome dele era Yaacov Peticov (imagino que é assim a grafia do nome).
De repente, estava eu em outro lugar. Andava ao lado de um homem. Falei-lhe, mentalmente, sobre a passagem dessa vida para a Pátria Celestial. Confortava-lhe sobre seu filho que havia partido. Nisso a sua mulher chegou-nos, e ele a informou que era para me ouvir. Ela ironizou de maneira leve, perguntando se ele estava fazendo análise. Sentamo-nos, o homem e eu em um banco. A mulher, em seguida, sentou-se sem cerimônia no colo dele, deitou-se com a sua cabeça em meu colo e, ficou olhando o céu − intimamente, pensei, é ela que fará análise, agora. Fiquei muito surpreendido, pois aquela “mulher”, era na verdade um homem, inclusive com bigode. Tratava-se de um casal de mesmo sexo, mas, nitidamente, dava-se para perceber que, apesar do corpo masculino, a alma era totalmente feminina.
A mulher assustou-se, quando, comecei a falar sobre o filho deles. Resumidamente, do pouco que ainda permanece na tona do meu consciente, falei-lhe que aquilo que Deus cria não se desfaz, não se acaba, não se extingue. Pode-se tomar outra forma, outro lugar, e falando, mental e calmamente, afirmei que a alma do filho querido era parte da essência do divino, e isso já o qualificava para um lugar na criação divina.
Finalizei, que as estrelas foram feitas para brilhar nos céus, e o filho querido que havia partido, da mesma forma, está em um lugar nas alturas. E quanto mais alto, melhor, o brilho alcançará maior número de pessoas.

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Fiddler on the Roof - performed by 14 year-old violinist Solene Le Van
https://www.youtube.com/watch?v=Db1fogJXDIY
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sexta-feira, 20 de novembro de 2015

NOVAS DANÇAS


NOVAS DANÇAS Autor: Nilton Bustamante Do meu corpo claro, torpor ser cais do mundo Do meu peito claro em noite escura É que trago tudo que ficou pelo avesso Do meu corpo torpor do mundo Do meu peito escuro, noite clara, dias de chuva É que trago tudo que são rotas novas, pó em traços riscados ao vento Eu que servia a cautela Desci sorrindo o frio que vai por dentro enquanto a vontade voa, voa Pra perto longe Alcança as mãos e o lado preso Surpreso em praias calmas Dançando com cartas e teoremas Do meu ser de chuva Abrir janelas e vidraças Sentir os dilemas Do meu corpo estrada, pó vagando o mundo Descalço em novos berços Nasce e cresce Pelo avesso, serrano em mata fria com todos os enganos Sorrir pro anjo dançando em suores, descendo cego pelo mundo Salgando tudo Em sonhos doces Pra acordar novas danças De braços e pernas pelo avesso, teoremas... poemas . . .

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

“AIS”


“AIS”
Autor: Nilton Bustamante 

Essas suas frases sempre se iniciando com “ai”,
− sei, eu não deveria dizer, não deveria, mas isso já é provocação, desaforo, é arrepio a quente e a frio –
me faz ouvir outras formas, outros sons,
como quem diz “ai” com rosa vermelha entre os dentes, 
geme ardente a dor e pede mais...

Essas suas frases sempre se iniciando com “ai”,
− sei, eu não deveria dizer, não deveria, mas isso já é alucinação, perdição, vinho na taça com sede se insinuando na boca que bebe, 
morde o suave que entumece e o que se aprofunda em rio –
me faz pensar outras formas, outros rasgos,
como quem pulsa e se esvai em “ais”, o tempo todo, seguidos “ais” 
desses que não saem dos ouvidos,
da cabeça, da seca garganta que engole o que quer esconder...

Talvez seja mesmo o vinho – sim, vamos culpar o vinho, fica mais fácil –
fechar os olhos, passar os dedos por onde a imaginação,
deitar-me no sofá, pelos lados, pelos entornos, 
recolhendo todos os seus “ais” e deixando um a um
feito gotas de gelo caírem sobre o quente e frio do meu corpo nu.




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Asturias 
https://www.youtube.com/watch?v=Nx7vOb7GNBg  

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quarta-feira, 4 de novembro de 2015

TRAVESSIA


TRAVESSIA

Autor: Nilton Bustamante

Papéis amarelados guardados por onde não pudessem se esconder, 
Nem deixar que o tempo esquecesse
Maserada Sul Piave
Por semanas que se repetiam
Desde a ida, desde a vinda
Por longas noites, sofridos dias
Misturados de famintos desejos
Para acalmar a vida
Em cama de palha seca
E mãos ansiosas
Pelos contornos das luzes da esperança
Que se busca, que se busca, e quem sabe... se alcança sem esperar

Os ares pelas narinas mais secas ainda
Atravessando mares que não terminam, que não se entregam nunca
Cavalgando ondas e mais ondas
Perdendo-se no horizonte dos olhos
Molhados pela saudade
De outros olhos, outros olhares que nunca mais serão pertos...

Os pesares nos ombros cansados
Deixando para trás tudo tudo tudo que não se quis
Mais sofrer
Quase voando um novo voo, quase cantando nova canção
Das promessas que os ouvidos ouviram docilmente
Fazendo o coração pular nova fantasia
O que se podia, o que se permitia acreditar

Treviso, longo e sentido adeus
Para nunca mais, nunca mais

...
(Em homenagem ao meu avô Guerino Marro Buso, nascido em 30 de janeiro de 1888, Maserada Sul Piave, Treviso, Itália, e que ajudou a formar cafezais na região de Catanduva, São Paulo, Brasil.)





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Zizi Possi
https://www.youtube.com/watch?v=RzEB2vMo7dA&list=PLeaw7-hDN_20CEz6SIIVOCL1r2bqODl40&index=2 



https://www.youtube.com/watch?v=j66lvMjRpyY&list=PLeaw7-hDN_20CEz6SIIVOCL1r2bqODl40&index=3
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FILMES DE AMOR


FILMES DE AMOR
Autor: Nilton Bustamante

Na eternidade do agora, estou longe longe
Estou IF, o que ficou nos discos, prateleiras
Das noites que se transformaram em filmes de amor
 
Encosto em seu rosto, em sua face,
Fecho os olhos doce doce
Porque preciso viver

Quem sabe, imaginar estrela solitária sobre a sacada
Das horas mais lindas, delicadas,
Enquanto desde muito a poesia chovia
E já me deixava essa mesma falta de ar

Hoje sou ontem pensando
Na eternidade do amanhã
Hoje sou qualquer guitarra tocando doce
Feito jovem que se lança pro mergulho sem querer saber
O que virá depois

Hoje estou assim, eternidade,
De um jeito que acredita no possível do impossível
Que não vive mais sem você...

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Bread - If

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George Harrison - While my guitar gently weeps



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domingo, 11 de outubro de 2015

O QUE É AMAR


O QUE É AMAR
Autor: Nilton Bustamante

Talvez ainda não nos falamos como deveríamos, como deveria ser
tentamos reinventar o silêncio
depois desses anos todos

Talvez as nossas palavras elaboradas sejam outras, como deveria ser
quando reinventamos a solidão
que não mais se quer ter
outro peso, outra cor, sem o amargo da dor, sem o confronto da acusação,
sem que o outro leve qualquer culpa por aquilo que somos nós

Somos borboletas saindo do casulo, ensaiando o voo,
somos as repetições dos dias e das noites às vezes mal dormidas
às vezes o doce balanço das nuvens sobre montanhas verdes em céu azul

Talvez ainda não percebemos, mas nossos olhos mudaram
lançam-se olhares feito super-heróis
sem medo de se afogarem no mais fundo dos mares e lagoas repletas de alma,
brilham suas luzes e se enfeitam de fantasias naquilo que querem ser, acreditar

Fomos diminuindo o mundo em nossa volta,
estamos na mesma ilha cercada de 7 oceanos,
cercada por nós dois por todos os lados,
ficamos no esconde-esconde, corremos para os piques-piques dos livres
para ficarmos em paz, você sabe, eu também, é assim...

Conseguimos ficar a sós, ficarmos juntos,
repletos de nós dois, estamos descobrindo que há muito ainda por encontrar
muito por caminhar em nossos dutos-caminhos-labirintos,
que há flores, que há amores a serem beijados e sentidos

Estamos despertando desse imenso sono, dessa gigantesca dormência
e para tanto precisamos do tempo
precisamos que a paz e a guerra se entendam
estamos aprendendo o que é amar




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Coldplay - The Scientist 





...

outra versão...




É ASSIM...
autor: Nilton Bustamante
Fomos diminuindo o mundo em nossa volta,
estamos na mesma ilha 
cercada por nós dois por todos os lados,
ficamos no esconde-esconde,
corremos para os piques-piques dos livres
para ficarmos em paz

Você sabe, é assim...
Estamos despertando desse imenso sono,
dessa gigantesca dormência
e para tanto precisamos do que traz o tempo
precisamos que a paz e a guerra se entendam
Estamos aprendendo o que é amar
sem a pressa dos sem tempo a perder
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Coldplay
https://www.youtube.com/watch?v=rLm_aSP369M
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sexta-feira, 9 de outubro de 2015

SOMENTE PRA VOCÊ SABER


SOMENTE PRA VOCÊ SABER
autor: Nilton Bustamante

Não precisa dizer nada a não ser, quem sabe, sentir.
Mas, antes a nossa canção, ouvir alto, na altura que desejar,
par de asas dessas pra voar,
assim, direto, olhando no fundo do profundo do imenso da imensidão,
somente para você saber, somente pra você conhecer um pouco mais o que quero dizer...
Esse cerco, esse estar ao lado a todo instante,
em todo lugar em que eu vou, em todo lugar que me encontro, encontro você.
É uma coisa mesmo, dessas que é grude,
é perfume de pitanga que me faz subir na árvore somente pra ser herói,
somente pra fazer surpresa, somente pra ver se você vem...

É uma paixão, dessas que dá pra explicar e ficar inexplicável,
dessas de ficar inaceitável toda distância.
É querer esquecer, e sem perceber ficar fazendo mandala, entoar o mesmo mantra,
exercício de se aproximar cada vez mais, mais e mais e mais até sentir seus cabelos em minhas mãos,
sentir... sentir... o doce da canção assim feito agora,
essa fome que me faz lamber esse silêncio de amor.
Aquelas madrugadas, preciso dizer, não se acabaram, elas se esticam,
elas se alongam com a mulher que mia, quase menina,
quase esperança de tudo ser mesmo realidade, imaginação... não importa agora.


Ter toda a pressa do mundo
e ao mesmo tempo toda a calma de quem está sentindo o que se vai por dentro dos segundos,
o que se vai por esse mundo que encontramos, que criamos, que nos apaixonamos,
montando tantas estrelas de vidro que se quebram e formam outras mil mais e mais...
até o fim do percurso olhando seus olhos, olhando no fundo do profundo do imenso da imensidão,
somente para você saber, somente pra você conhecer um pouco mais o que quero dizer,
o que quero gemer pra você.



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https://www.youtube.com/watch?v=0Nz-ihhb9ms
Guinevere ( Rick Wakeman )

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

SONHO VENDAVAL


SONHO VENDAVAL
Autor: Nilton Bustamante
A maior tormenta
é mesmo o beijo, este beijo
esta vertigem sem controle dentro do próprio peito
que segue nada igual, pulsando diferente
n'alma-manto o desconhecido universo
a deixar, sem avisar, nos lábios o gosto de todos os santos pecados.
Ai, esta indizível delicadeza
dos toques e notas
que nos faz acreditar que desce da lua
o que é doce, o que é magia
voos olhares-estelares em mil formas de sonhos que estão perto que estão longe
a balançar humanos corações
como se fora milagre, esta sinceridade
em forma de canção,
destas que nos faz pensar que somos felizes pelo mundo todo.
Ah, imenso desconhecido
mostra-me a terracota poesia
destas terras dos amantes sem palavras que se sabem pelos cantos dos olhos
silêncio que arrepia
e acaba sem roupa alguma em inesperado vendaval.
É que o tempo que me sopra
faz-me rasgar as noites em quarto escuro
onde nasce o beijo, este beijo,
esta tormenta que é quase dor, é quase morte,
mas em mim... é vida!
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Alice Fredenham

https://www.youtube.com/watch?v=4KUpKXUSpfM


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sábado, 3 de outubro de 2015

OLHOS PINTADOS

OLHOS PINTADOS
Autor: Nilton Bustamante

Você falou mesmo com esses seus olhos
Detergentes que me limpam a mente
Deixa a gente sem espaçonave olhando o vazio sem saber pra onde ir
Essa coisa de deixar a jugular exposta
Mostrando o pescoço como quem não quer saber de nada
Nem sempre dá pra acreditar, armadilha, eu sei,
Me levam ter fome de todos os pecados
Ouvindo sinos
Arranhados por suas afiadas unhas
Sem dó, sangrar sem receio
Sem querer deixar nada pra depois
Essa coisa de me morder a boca e rir
Me enganando que é somente um beijo bobo
Essa coisa de me deixar apaixonado
Me fazendo acreditar em estrelas e fada mostrando o pescoço
Como quem já sabe de tudo
Que me espera no primeiro descuido
Me hipnotizar
Me deixar pensando onde você está
Nessas suas voltas ao mundo sem tempo pra voltar

Mas, antes que eu possa me dar conta
Me largo,
E deito no seu colo nesse irresistível consolo:
Ser tragado
Jogado em fumaça pelos ares
Deixado aos poucos por todos os lados
Mergulhando em seus profundos vazios
Ser consumido
Toda vez que abre seus braços e apaga com as mãos o próprio dia
Deixar tudo noite, madrugada
E o sol em caixinha vazia
Pintada de esmalte solidão

Ai, e outra vez ai, mulher olhos pintados, menina que mia,
Esses seus feitiços das noites vazias
São mesmo pra me caçar
Mas eu grito pra criar coragem, gemo de amor
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Amy
https://www.youtube.com/watch?v=TJAfLE39ZZ8

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terça-feira, 29 de setembro de 2015

RAÍZES DO ÓDIO - Ensaio Dramaturgia


RAÍZES DO ÓDIO - Ensaio Dramaturgia
Autor: NILTON BUSTAMANTE


PERSONAGENS:

Milton
Recruta. 18 anos.
Funcionário da Secretaria de Segurança Pública. 52 anos.

Assumpção
Mãe de Milton. 58 anos.

João
Pai de Milton. 60 anos.
Sargento Guimarães
Militar. 39 anos.

Médico
Militar. 40 anos.

Coronel Figueiredo
Militar. 50 anos

Maria Odete
Esposa do coronel. 45 anos.

Advogado
Profissional liberal. 48 anos.

Porteiro
Funcionário da Secretaria de Segurança Pública. 49 anos.

Vieirinha
Detento. 30 anos.

Braga
Chefe dos investigadores. 50 anos.

Soldados da PE
Polícia do Exército

CENÁRIOS
Cemitério
Residência de Assumpção, João e Milton
Quartel do Exército
Residência do coronel Figueiredo
DEIC

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CENA 1



Luz em foco sobre Milton e a lápide.
         
MILTON, ADULTO,  AJOELHADO DIANTE DA LAJE TUMULAR DOS PAIS, CHORA COMPULSIVAMENTE.   LOGO DEPOIS, GRITA DESESPERADO:
PAPAI, MAMÃE, O QUE VAI SER DE MIM?


(BLACK-OUT)


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CENA 2



O recrutamento militar


 (ASSUMPÇÃO, DESESPERADA E CHORANDO, NUM CÔMODO DA CASA, COM JOÃO E MILTON.)



ASSUMPÇÃO
João! Não! Não deixa! Nosso filho não! E se tiver outra guerra mundial? E se algum comunista jogar uma bomba no quartel? Mais um filho morto? Mirto, não vá, Mirto! Não vá...


MILTON
(emotivo) Calma, mãe. Não tem guerra nenhuma. É um ano só de serviço militar. Prometo me cuidar. Com todo rapaz da minha idade é assim...


JOÃO
(abraçando Assumpção e Milton) É isto mesmo, querida. Passa depressa.  Um ano não é nada. Vamos visitá-lo todas as semanas. Nosso filho não é bobo. O Exército cuida bem dos filhos da pátria...


MILTON
... Já pensou, mamãe? Seu filho de farda. Do Exército. Vou desfilar pra vizinhança toda.


ASSUMPÇÃO
(mais calma, esboça com dúvida um breve sorriso.)

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 CENA3



No quartel



(SOLDADOS PASSAM MARCHANDO. O SARGENTO INTERPELA O RECRUTA MILTON)



SARGENTO GUIMARÃES
(com imponência) Recruta Milton!


MILTON
 (mecanicamente, bate continência.) Senhor!


SARGENTO GUIMARÃES
A esposa do coronel está precisando de um novo ordenança. O anterior deu baixa. Como você é o menos ignorante dessa tropa de encostados sociais, vai assumir este posto. (tom ameaçador) Vê lá, hein?  Se fizer qualquer coisa que contrarie a esposa do comandante Figueiredo, te como o fígado. Entendeu bem? Traste, filho da puta...


MILTON
 (peito estufado) Sim, senhor! Agradeço, senhor!


SARGENTO GUIMARÃES
 (sarcástico) Outra coisa. Fiquei sabendo que sua mãe suborna um recruta pra lhe trazer comida. Não aguento mais ver a velha choramingar na porta do quartel, por sua causa. Não tem vergonha, não? Você é militar ou maricas?


MILTON
Desculpe minha mãe, senhor! Não vai mais acontecer, senhor!


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CENA 4



Residência do Coronel Figueiredo


(MARIA ODETE, ESPOSA DO CORONEL,
COM O SEU ORDENANÇA  MILTON)


MARIA ODETE
 (tom maternal) Milton, meu rapaz. Eu e meu marido estamos muito contentes com seus serviços. Vai fazer seis meses...


MILTON
(com alguma intimidade) Agradeço, senhora! O coronel e a senhora são muito bons e gentis. Já nem me incomodo quando meus amigos me chamam de  peixinho do coronel.


MARIA ODETE
(rindo) Peixinho? É por isso que as mulheres mais novas dos oficiais querem você em seus aquários, não?


MILTON
 (envergonhado, não responde)

MARIA ODETE
 (tom maternal) Diga-me, meu rapaz, como são seus pais? Sua casa? Tem namorada?


MILTON
Não, senhora! Não tenho namorada. Só na matinê do cinema, eu paquero algumas garotas. Nada sério. Minha casa fica lá no subúrbio, Zona Norte. Somos filhos de imigrantes. Os primeiros do bairro vieram lá do Brás e da Penha. Compraram lotes e, nos fins de semana, constroem suas casas. Sempre foi uma luta.

MARIA ODETE
(rindo, moraderadamente) Por isso é que você fala mançã, mortandela, sangüiche, não é mesmo?...

MILTON
(súbito entristecimento) Minha mãe viveu um drama terrível. Eu sou o  caçula. Vinte anos atrás, em São Paulo,  houve uma grande epidemia. Tifo. No meu bairro, muitos caíram doentes. Os hospitais lotaram. A morte trabalhou muito. Levou muitas e muitas vidas.


MARIA ODETE
(aproxima-se. Dá-lhe maior atenção)


MILTON
(olhando o vazio) Na época, eu não era nascido. Meus pais tinham um único filho, Nelson, de doze anos. Adoeceu com a febre tifóide. Foi levado para a Santa Casa. Minha mãe conseguiu ser voluntária para ficar perto do filho, além de tratar dos outros doentes. Ela não comia. E sofria, sofria, vendo pessoas morrerem. Todos os dias, as mesmas tragédias. E a cada óbito, minha mãe se agarrava mais ainda ao filho. Iam definhando juntos. Como se os dois padecessem o mesmo castigo. O meu pai, todas as noites levava chocolates para os enfermeiros e alguns pacientes. E chorava também, vendo mulher e filho morrendo...


MARIA ODETE
(pegando as mãos de Milton, penalizada)... O seu irmão curou-se? Conseguiu sobreviver?


MILTON
Certo dia, minha mãe atendia seus pacientes em outra ala do hospital. Foi chamada às pressas. Nelson agonizava. Não aguentou. Morreu nos braços dela. Minha mãe, enlouquecida, saiu gritando com o filho morto no colo,  pelo hospital.


MARIA ODETE
(com lágrimas) Coitada... E quando você nasceu? Dona Assumpção não superou a dor com a vinda do novo filho?


MILTON
Meus pais me sufocaram. Coitados. Queriam me salvar de todas as dores da vida. Veja, senhora, meus pais até hoje me trazem balas, aqui no quartel, como se eu fosse um menino. Acho que eles não querem que eu cresça. Imaginam que podem me perder. Mais uma perda, entende?

MARIA ODETE
 (curiosa) E sua mãe, depois de tudo?


MILTON
 (sem forças) Até hoje ela grita, correndo pelo quintal de casa, pedindo socorro. Imagina o Nelson em seus braços. Como se tudo fosse somente um pesadelo. Que pode acabar a qualquer momento. Mas nunca termina...


MARIA ODETE
(solidária) Aqui não é o seu lugar. Você precisa ficar ao lado de seus pais.


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CENA 5



Casa dos pais de Milton,
Assumpção, João e o Sargento Guimarães
se encontram.


(PALMAS NO PORTÃO)



ASSUMPÇÃO
(nervosa) João! É o sargento Guimarães, aí, no portão, de novo. Vá lá falar com ele. Acabe logo com isso. Não aguento mais. Nem nos fins de semanas...


JOÃO
(vestindo as calças, apressado) Tem certeza? É todo mês esse inferno. O que os vizinhos vão pensar? Esse jipe militar parado aí no portão de casa...


ASSUMPÇÃO
(começa a chorar)


JOÃO
(ofegante e mau humorado) Pois, não! O que o senhor deseja, sargento, desta vez?


SARGENTO GUIMARÃES
 (sorrindo, irônico) Bom dia, senhor João! Como tem passado? E o seu filho, Milton? Como vai na vida civil? Uma boa, não? Família unida. É assim que tem que ser. Sempre falo isso...


ASSUMPÇÃO
(chorando) Sargento, por favor, deixa nosso filho em paz! Já não basta a humilhação... Você pensa que somos ricos, é? Somos não. Meu marido sai às cinco da madrugada para trabalhar lá no Brás e volta às onze da noite. Folga só aos domingos.


JOÃO
(alterado) Cala a boca, Assumpção. Vá pra dentro. Olha os vizinhos! Deixa que eu resolvo.



SARGENTO GUIMARÃES
(ombros encolhidos) Ô, seu João. Péra aí. Tô aqui como amigo. Vim para ajudá-lo. Tenho que levar um calmante pro doutor, médico do quartel. Quer que explique de novo? Tim tim por tim tim? Só mais três parcelinhas, e tudo resolvido. É isso aí.



JOÃO
(indignado) Não é tim tim por tim tim. O que vocês querem é tutu e mais tutu. Um em cima do outro. Você falou da vez passada que era a última, lembra-se?



SARGENTO GUIMARÃES
 (solene e falso) Não. O senhor está enganado. Francamente. Nós, lá no quartel, gostávamos do recruta Milton. Queríamos o bem dele. O tempo todo. Ele era o peixinho do coronel. Só na manha do gato. Tá me entendendo? Poderia seguir carreira, até. Mas dona Assumpção ia toda santa semana chorar as pitangas pra mim, lá no quartel. Queria liberar o filho do serviço militar. Insistiu tanto que eu me compadeci dessa pobre mãe. Intercedi junto ao doutor médico para arrumar as coisas pro Milton bater asas como passarinho. Livre! Corremos riscos, mas seu filho ficou livre, não é mesmo? O menino tem tanta sorte...



JOÃO
(cabisbaixo.) ...Tá certo. Tá certo. Vou abrir a carteira pela última vez. Tome aqui os três cheques. As três parcelas que você falou. E nunca mais volte aqui.


SARGENTO GUIMARÃES
(sorrindo, bate continência.) Sim, senhor! É uma ordem. E ordem não se discute. Adeus. Ah! Só pra deixar claro: nunca em hipótese alguma NINGUÉM poderá saber desse nosso acordo. Entendeu bem, senhor João?


JOÃO
 (abana a cabeça, concordando.)

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CENA 6

 
Anos depois. Nos recintos do DEIC


 
BRAGA, CHEFE DOS INVESTIGADORES
Ô “Miltão”. Dá o alerta pra turma, rápido. Tem advogado, filha da puta, lá na portaria, com papel da justiça querendo fuçar por aqui. Está procurando o Vieirinha.

MILTON
(rindo) Pode deixar, chefia. A gente vai enrustir o sacana. O filho da puta não vai encontrar ninguém na carceragem. O Vieirinha nunca entrou aqui no DEIC, não é, chefia?

BRAGA, CHEFE DOS INVESTIGADORES
É isso aí, “Miltão”. Vai lá na portaria receber esse puto. Dá canseira nele. Roda o prédio todo. Faça o cara de palhaço...

MILTON
(atende a ordem. Vai à portaria)


(NA PORTARIA)

ADVOGADO
(revoltado) Minha liberação está demorada, por quê? Estão ganhando tempo? Eu sei bem como vocês trabalham...

PORTEIRO DO DEIC
(irônico) Êeeeee... Calma aí, doutor. Tô fazendo o que posso. Não ganho tanto para trabalhar assim rápido...
Pronto. Chegou o  Milton, que vai acompanhar o senhor.


(MILTON E O ADVOGADO VÃO EM DIREÇÃO AO ELEVADOR)
 PORTEIRO DO DEIC
      (irônico, chama atenção do advogado, que se vira)

Doutor! Doutor! Não posso deixar de desejar: boa sorte, viu?!


ADVOGADO
 (nada responde. Continua caminhando)

PORTEIRO DO DEIC
 (fala em tom baixo) Que o seu cliente se foda!

 ADVOGADO
Por favor, Milton, leve-me para a carceragem principal. Eu sei que há outras. Cá entre nós, agora que estamos sozinhos... Eu sei que vocês esconderam o meu cliente. Ele tá ‘frio’ aqui dentro. Mas tenho evidências. Fortes evidências. Uma equipe o trouxe para cá. Leva quinhentinho só para me dizer se ele está vivo.


MILTON
Que isso doutor!? Quer comprometer minha carreira? Não pego pau de ninguém. Vou fazer de conta que não ouvi essa afronta. (OS DOIS SAEM DO PALCO)


 (E, QUASE QUE IMEDIATAMENTE, MILTON E O ADVOGADO ENTRAM NO PALCO)

ADVOGADO
Pô! Assim não dá. Já fomos em todos os andares. E nada. Estou com os pés fervendo. Vocês não vão entregá-lo mesmo. Mas vou falar uma coisa. Na linguagem de vocês. Pode espalhar: se eu pegar o puto que está escondendo meu cliente, vai se danar. Espere pra ver. (sai revoltado)

BRAGA, CHEFE DOS INVESTIGADORES
 (chega, feliz.) E aí, “Miltão”? O advogado filha da puta deu muito trabalho? Eu sei que você não leva nenhuma grana. Gosta do seu serviço, não é mesmo?  Ô gente boa, tamos com pouco pessoal por causa do feriado de amanhã. Daqui a pouco vamos colocar os hóspedes no pau-de-arara e descer o cacete. Vamos inaugurar os azulejos novos. Fica mais fácil de lavar e tirar as... Você sabe, né. Precisamos da sua ajuda.
(rindo) Já tá noite, este é o horário da verdade. Da recreação. Você vem?


MILTON
Pode deixar, chefia. Tô nessa.


(BLACK-OUT)
(OUVEM-SE GRITOS DE DOR E  SONS DE ESPANCAMENTO.)

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CENA 7

 

Luz em foco sobre Milton e a lápide

NOUTRO DIA. FERIADO DE FINADOS. NO CEMITÉRIO. MILTON USA A LÁPIDE DOS PAIS COMO SE ESTIVESSE DIANTE DE UM CONFESSIONÁRIO.


MILTON
(meigo) Oi, Mamãe. Oi, papai. Hoje vim aqui visitar a campa da família. Como vocês estão? Tá tudo largado. Abandonado. Esse mato todo... Vou dar um troco na administração. Vão dar um trato. Não se preocupem. Ontem à noite trabalhei até mais tarde, lá no DEIC...


(NO CANTO OPOSTO, NO PALCO, FOCO SOBRE CENA DE TORTURA. TRÊS HOMENS SENTADOS, ALGEMADOS. MILTON VAI AO ENCONTRO DELES. MILTON CONTINUA COM O MONÓLOGO)


Sabe papai, pegamos esses caras (fala apontando os três homens sentados) e demos choque, porradas...

(com sentimento de vingança  pratica as mesmas cenas de tortura) eu peguei o cassetete com as duas mãos, e bati... bati... bati...  até não aguentar mais... Eu queria continuar batendo, mas não podia. Eu estava exausto, sem forças.
Toma seus filhos da puta, seus sacanas! Vão pagar também aqui na carceragem...

(Milton perde as forças e vai descansar sobre a laje tumular) Pronto, papai, eles pagaram por tudo o que o senhor passou naqueles dias da minha juventude. Pela humilhação. Eu descontei neles. Não quis nem saber.

(entram em cena, centro do palco, soldados da  PE  empurrando João, pai de Milton. Milton interage com a cena. Em cantos opostos do palco há luzes destacando a lápide e os três homens torturados, sentados.)

Lembra-se papai, quando uma sindicância militar descobriu o esquema de baixas do Exército? Descobriu vários cheques na conta do oficial médico e do sargento Guimarães? Inclusive aqueles três últimos do senhor.  (chorando) A Polícia do Exército  nos prendeu. Eu e o senhor tratados como bichos. Lembra como apanhamos? Ainda vejo o interrogatório. Eles pisando em cima do senhor, papai. E o senhor gritava, gritava...
(Milton põe as mãos nos ouvidos. Os soldados da PE torturam João que grita de dor) Pare de gritar, papai. Minha cabeça vai estourar.

(Milton volta à laje tumular e encosta o rosto junto da foto da mãe. Fala infantil)
Mamãe, se tiver epidemia de tifo, outra vez, a senhora vem cuidar de mim? Igual que cuidou do Nelson? A senhora vai me amar igual?  O Nelson está aí desse lado, com a senhora e o papai? Por que vocês não falam nada? O que sobrou da minha vida? (olha, em sequência: os três homens torturados, a Polícia do Exército com os coturnos sobre João e depois para a lápide)


 (após um silêncio, começa um choro compulsivo, ajoelhado. E diz quase inaudível)

Eu estou sozinho...  estou com frio...


(grita com desespero)

PAPAI! MAMÃE! O QUE VAI SER DE MIM?



(BLACK-OUT)

– FIM –






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CÁLICE
https://www.youtube.com/watch?v=376c56dmHmY




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