quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

UM DIA ASSIM


UM DIA ASSIM
Autor: Nilton Bustamante

Um dia assim como não se quer fazer nada,
a não ser viver.

Um dia assim,
persianas semiabertas para manter-se um certo ar,
um certo segredo,
um certo jeito em que a penumbra é bem-vinda.

Ficar sentado no sofá,
jogado sem forças pra mais nada,
a não ser pensar, pensar, pensar...

Um dia assim como não se quer fazer nada,
a não ser viver.
Entender o que se busca,
mesmo sem querer.

Não ser cego, mas não enxergar, como pode ser?
Estar-se acostumados a ver o comum,
mas o comum sempre some ao cotidiano dos olhos.
Foca-se demasiadamente os exteriores.
Ou por medo, ou por costume, não se aprofunda,
não se desce as escadas,
deseja-se facilidade pra tudo, corrimãos.

Procura-se saber sobre o solo, sobre as raízes,
mas não se pesquisa o quanto da seiva precisa para manter uma folha.
Busca-se o beijo,
como se cada beijo fosse a própria cama. Mas, o beijo é outro sonho,
mágico tapete que traz o frio de outros cantos,
outros encantos,
outros amores.

Quando o motivo é lançado no espaço,
num impulso na procura bumerangue
querendo o retorno de algo, ou alguém,
é busca,
é querer suprir algo,
o alimento que a fome necessita e muito mais.
É preciso sair de si.
Deslocar-se do ego ensaiando para entrar em outros campos,
adaptar-se,
qualificar-se ao sonho do sonhador.

Um dia assim como não se quer nada a fazer,
a não ser escrever.
Deixar alguma marca,
algum registro,
algum sinal de fumaça para quem quiser ver.

Um dia assim,
misturando claridade, noite e sonhos,
esquecer-se dos minutos que avisam, avisam, e não esquecem.
Melhor sentar na grama, meditar, jogar tudo fora,
quem sabe, contradizer-se,
buscar fotografias mentais para não se esquecer da própria existência.
Sentir-se personagem de muitas estórias,
na história dos tempos e dos acontecimentos,
ser apenas folha rolando com a ajuda do vento,
somente para ser algo, ser alguém.

Quanto da vida ainda, inflando os pulmões?
Quantas letras caindo dos céus?
Quantas meditações em azul néon?
Quantos suspiros entregando-se à ampulheta sem mais grão algum?
O que parecia que nunca iria passar, torna-se tão sem sentido. Tão esquecido.

Foi tão assim,
naves marcianas, pirilampos e fadas,
algo que a mente escrava dos mortais não poderão entender.

Um dia assim,
da alma persianas semiabertas para manter-se um certo ar,
um certo jeito em que a penumbra deixa penetrar alguns filetes de luz se aventurar.
Fazer de si tela de cinema, luz mostrando partículas de pó do tempo em suspensão
e seguir até aonde for possível,
até aonde conseguir ir...

Um dia assim,
persianas semiabertas,
como não se quer fazer nada, a não ser viver... de amor






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Pink Floyd http://www.youtube.com/watch?v=nDbeqj-1XOo
Pink Floyd - Us and Them

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2 comentários:

  1. este exímio texto, hoje, agora, já, me cai como luva...

    vc não tem idéia de como...

    abraço !

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